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Sobre Dioniso

Dioniso é a vinha que cresce pujante, cheirosa, doadora do vinho, e que logo se dobra, amarelece, seca e volta para dentro da Terra. Zeus uniu-se em amor à princesa de Tebas, Sêmele. Sêmele é um nome não grego, que significa "deusa terra". Outra explicação deste nome é a sua origem em Selene, manifestação da lua. Dioniso também não é um nome grego: sua origem é misteriosa, mas há uma pista no nome Zonnysos, que significa "filho de Zeus". Grávida, Sêmele cantava e dançava, descalça. Hera, sempre ciumenta de Zeus, foi ao encontro dela, sob a forma de sua ama de leite, e falou que ela não conhecia a verdadeira forma de Zeus. Na primeira oportunidade, a princesa insistiu para Zeus mostrar-se, para ela, em sua essência. O deus recusou o quanto pode, mas enfim cedeu. Os raios e os trovões iluminaram o céu, tremeram a terra e incendiaram Sêmele. Zeus imediatamente chamou Hermes, que daquele corpo carbonizado tirou o feto e entregou-o ao pai. Zeus colocou o feto dentro da ...

Sobre os mitos gregos

As histórias que nos contaram, quem as criou? Há como alguém tê-las criado? Poesia, no seu sentido original, grego, é fazer. Mas isso não quer dizer que o poeta seja o criador dos poemas que fala. As histórias míticas dos gregos não eram criações de homens com uma grande habilidade para extrair algo de suas próprias experiências. Se os gregos eram extraordinários é porque para eles o mundo era extraordinário. O universo era divino. Os deuses não os visitavam esporadicamente. Os deuses eram o mais profundo e amplo ser das coisas. "Mito é a interpelação do Deus ao homem. Culto é o impulso suscitado no homem por essa interpelação e que o compele a criação de formas a testemunharem a sublime presença do Deus interpelante." (Torrano, p.61 e 62) Da mesma Terra em que foi gerado o homem, também o foram os deuses. Os destinos deles diferem entre si, e isso é um abismo a separá-los. Mas o viver do homem, cada coisa que ele faz, é acompanhado. Os deuses são a própria presença, são o t...

A Orestéia, de Ésquilo

O século V a.C. foi o auge econômico, político e cultural de Atenas. Em 479, a Liga Délia, liderada por Aristides, ateniense, obteve, numa planície da Beócia, a vitória final sobre os persas. Desde o ano 500, os persas vinham tomando territórios dos gregos, na Anatólia e no mar Egeu, e tentavam adentrar a Grécia central. As cidades-Estado gregas pagavam tributos à cidade que liderava a Liga Délia, liderança esta que já fora dos espartanos e que agora era dos atenienses. A vitória decisiva sobre os persas deu-se pelo uso das trirremes, barcos de guerra leves e, portanto, facilmente manobráveis, que conseguiam pegar de surpresa os barcos inimigos. A maior parte da tripulação das trirremes era de trabalhadores, uma população até então sem participação política em Atenas, e que após a guerra passou a ser reconhecida. Péricles, reformador constitucional e das instituições, permitiu sua participação nas Assembleias, onde as leis eram votadas. Antes disso, a participação política era restr...

A performance do canto

Uma pessoa não conta Chapeuzinho Vermelho da mesmíssima forma que outra. Mas é sempre a mesma história! Na Odisseia, o aedo que canta para os feácios, Demódoco, é elogiado por Odisseu como tendo cantado as coisas conforme a ordem, kata kosmon. O aedo canta o que as Musas lhe sopram, e elas lhe sopram um canto que segue o tema e o enquadre pedidos pelo aedo. Elas sabem, pois viram, e eles cantam, pois ouvem. O canto de Demódoco agrada aos ouvintes e foi bastante fiel aos acontecimentos. No início do mesmo poema, Fêmio é forçado pelos pretendentes de Penélope a cantar o desastroso retorno dos aqueus, vindos da Guerra. Agrada-lhes o que quer que sugira que Odisseu está morto. O canto de Fêmio é considerado novíssimo: novíssimo porque trata de coisas que ainda estão acontecendo - o paradeiro de Odisseu é incerto - , e novíssimo porque é um canto que acabou de ser tecido. A poesia épica é uma longa composição oral, na qual o esforço dos poetas entrelaça-se à memória coletiva. As histórias ...

A conveniência do canto

Você está relaxado, e assim quer continuar. Alguém começa uma história, e ela vem bem a calhar. Você está tenso, e quer se despreocupar. Uma história pode ser o carinho que você está a precisar. Não importa se é verdadeira ou falsa. Não é notícia. É ficção, novela: próxima da realidade o bastante para não ser uma bobagem, mas criativa, interessante. Mythós é história que se conta. Odisseu não é um aedo, não foi instruído pelas Musas. Contudo, tal como elas, ele sabe manejar mentiras e falsidades para contar histórias coesas, bem articuladas e convenientes. Ele agrada ao seu público, contando coisas que viu. O aedo, por sua vez, não viu o que conta, mas o ouviu das Musas. Os aedos são os inspirados, e são os pais de todos os poetas. Já Odisseu é astucioso, muito viveu, muito fez, por isso muito viu, e pode muito contar. Mas quando finalmente chega em casa, que ironia, não pode falar a verdade sobre si mesmo! Disfarçado de mendigo, ele agrada Eumeu, antigo servo de Odisseu. Agrada até...

A entrada de Aquiles na perdição

Na Ilíada, Aquiles está retirado da luta desde que foi desonrado por Agamenon. Após o canto 1, do poema, ele só tornará a aparecer no canto 9. Os aqueus precisam dele. Ou é ele que precisa dos aqueus? Os troianos chegaram às naus aqueias, e já começaram a incendiá-las. Nestor, o velho sábio, exorta o abatido Agamenon a suplicar a Aquiles que ele retorne, e o rei faz uma grande lista de bens valiosíssimos, dentre os quais uma filha sua, a serem oferecidos ao herói exilado. Nestor chama Fênix, Odisseu e Ájax Telamônio para visitarem-no. A palavra paternal, a palavra bem colocada e a identificação com um outro herói: esses três cercarão Aquiles, e persuadirão a sua alma. Chegando na tenda do herói, a embaixada encontra-o cantando, ao som de uma lira e tendo a audiência de Pátroclo, as glórias dos homens. Por que ele o faz? O canto é dom das Musas, e traz os seus benefícios de ordenação, glorificação e desvelamento. O mundo de Aquiles fica, em parte, restaurado ao fazer esse canto, e ess...

A religião grega

Busca-se na religião grega a origem da principal religião ocidental atual, o cristianismo. A religião grega não deve ser tomada como um primitivismo, e a cristã não necessariamente foi um progresso. A religião grega foi um fenômeno singular e irrepetível, que diz respeito à civilização grega. Esta civilização, como qualquer outra, é o compartilhamento de uma língua e de uma cultura entre diferentes países. Os gregos iam até onde Homero e a língua grega alcançou: da Sicíliia, na Itália, passando pelo continente Grego, pelas ilhas do Egeu até a Anatólia e o Oriente próximo. A poesia épica contou histórias dos deuses e dos heróis adorados em diferentes lugares, fixando-os, sem impor rituais, mas oferecendo um sentido a eles. Cada lugar tinha seus próprio rituais, e achados arqueológicos atuais mostram as orações, as divindades, os gestos, os sacrifícios e a época do ano em que eles se realizavam. Desde o início, o homem pratica certos rituais. Os camponeses do neolítico grego (milênio X ...