A performance do canto

Uma pessoa não conta Chapeuzinho Vermelho da mesmíssima forma que outra. Mas é sempre a mesma história! Na Odisseia, o aedo que canta para os feácios, Demódoco, é elogiado por Odisseu como tendo cantado as coisas conforme a ordem, kata kosmon. O aedo canta o que as Musas lhe sopram, e elas lhe sopram um canto que segue o tema e o enquadre pedidos pelo aedo. Elas sabem, pois viram, e eles cantam, pois ouvem. O canto de Demódoco agrada aos ouvintes e foi bastante fiel aos acontecimentos. No início do mesmo poema, Fêmio é forçado pelos pretendentes de Penélope a cantar o desastroso retorno dos aqueus, vindos da Guerra. Agrada-lhes o que quer que sugira que Odisseu está morto. O canto de Fêmio é considerado novíssimo: novíssimo porque trata de coisas que ainda estão acontecendo - o paradeiro de Odisseu é incerto - , e novíssimo porque é um canto que acabou de ser tecido. A poesia épica é uma longa composição oral, na qual o esforço dos poetas entrelaça-se à memória coletiva. As histórias da Ilíada e da Odisseia, para os seus ouvintes, e a do ardil do cavalo de madeira, para os Feácios, personagens da Odisseia, são conhecidas, enquanto memórias coletivas tecidas a cada performance dos aedos. O canto desses longos poemas fazem-nos aplaudir a grande capacidade de memorização dos gregos. Não existe, contudo, memória externa à performance, ao momento da composição. O poeta usa fórmulas, versos ou até blocos de versos, e sabe a história: ele canta a seu modo, enfatizando um ponto, subtraindo um personagem, parando ou avançando de acordo com o ambiente e as necessidades dele e dos ouvintes. A poesia homérica existia para ser cantada, no encontro do aedo com seu público. E ela existia a partir desses momentos de composição. Referência Jacyntho Lins - Antiga Musa

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