Creso é capturado!
"Quando um mulo for rei dos medos, tenha a coragem de fugir": Foi algo assim que o oráculo respondeu ao arauto de Creso, rei da Lídia, quando este perguntou se poderia atacar o Império Medo-Persa. Creso não percebeu que Ciro, meio persa, meio sírio, era o mulo ao qual o deus se referia. O incauto concluiu que era uma boa ideia atacar Ciro! Sandanis, um homem tido como sábio na Lídia, tentou aconselhar o rei: ele pretendia enfrentar homens que vivem em terra árida, e por isso vestem-se inteiros em couro; homens que bebem apenas água, e comem o que lhes cai na mão. São homens que não conhecem o que são as coisas boas, mas podem vir a conhecê-las ao tomarem-nas dos lídios. Perdendo a luta, nenhum luxo aqueles homens perderão. Foi por graça de um deus que Ciro não os atacou primeiro. Creso não se convenceu. A Capadócia era o primeiro território persa no caminho dos lídios, separado deles pelo rio Hális. Ciro tornou-se rei dos medos após derrotar Astíages, que era cunhado de Creso. Como Astiages tornou-se cunhado de Creso? Um grupo de nômades citas refugiara-se no território dos medos, que era dominado por Ciaxares. Ciaxares, a princípio, tratou-os bem, chegando a confiar-lhes alguns meninos para aprenderem a sua língua e a como usar o arco. Os citas costumavam sair para caçar, sempre trazendo algo para comer, mas uma vez voltaram sem nada. Ciaxares, com isso, os humilhou. Os citas, ofendidos, mataram um dos meninos medos, cortaram-no em pedaços e serviram-o a Ciaxares, como a carne de um animal. Os citas saíram do domínio de Ciaxares e viajaram até Sardis, na Lídia, em busca da hospitalidade de Aliates. O rei lídio não quis devolver os citas, e durante cinco anos houve uma guerra equilibrada entre os lídios e os medos. Numa batalha ocorrida no sexto ano, o dia virou noite. Tales de Mileto havia previsto esse eclipse para os iônios. Após este prodígio, as partes resolveram fazer as pazes, num acordo no qual cada um dos dois reis cederia um de seus filhos: Arienis, filha de Aliates e irmã de Creso, se casaria com Astiages, filho de Ciaxares. Para chegar a Capadócia, Creso teve de cruzar o rio Hális, o que ele fez, segundo Heródoto, utilizando pontes que já estavam no local. Mas Heródoto nos informa que, segundo os Helenos, não havia pontes no local. Creso teria sido ajudado por Tales de Mileto a cruzar o rio. O filósofo teria desviado parte do fluxo do rio, por meio de um fosso, o que tornou possível para os lídios fazerem a travessia. Creso chegou à região da Pteria, e arrasou suas plantações e escravizou ou expulsou seus habitantes. Ciro, por seu lado, tentou angariar reforços pelo caminho. Chegou até a solicitar a ajuda dos Iônios, sem sucesso. O combate na Pteria foi equilibrado. No dia seguinte, Creso estava desgostoso com o tamanho do próprio exército. Decidiu então voltar para Sardis. Ele pretendia, antes de reencontrar Ciro, conseguir o reforço dos egípcios, dos babilônios e dos lacedemônios. Creso enviou arautos para esses aliados, solicitando sua presença em Sardis em cinco meses. Os lídios que restaram da batalha em Pteria foram dispensados. Creso supunha que Ciro não o atacaria logo, pois experimentara o seu poderio. Eis que os subúrbios da cidade foram invadidos por serpentes. Os cavalos as devoraram todas. Creso mandou consultar os intérpretes de Apolo, da cidade de Telmessos. As serpentes eram filhas da terra, e os cavalos eram estrangeiros, inimigos. Era de se esperar, portanto, uma invasão de estrangeiros à cidade, com a sujeição dos seus habitantes. Creso, contudo, foi capturado por Ciro antes que pudesse ouvir essa previsão. Antes ele tivesse fugido, conforme a sugestão do oráculo! Após a batalha em Pteria, Ciro decidiu rapidamente atacar Sardis, contando com a desorganização temporária do exército lídio. Creso reuniu os homens disponíveis e reagiu como pôde. Os lídios eram bons cavaleiros e usavam muito bem a lança sobre a montaria. Os exércitos ficaram frente a frente numa planície perto da Lídia. A visão dos cavalos atemorizou Ciro. O grande persa mandou que se retirasse toda a carga de cima dos camelos que os acompanhavam, e que homens lanceiros os montassem e os conduzissem na primeira fila. Segundo Heródoto, os cavalos temem e não suportam a visão e o cheiro dos camelos. De fato, a aproximação do exército de Ciro fez os cavalos dos lídios recuarem. Ciro mandou que todos os inimigos fossem mortos, com exceção de Creso, que deveria ser capturado. Os lídios ainda resistiram a pé, mas logo recuaram. Creso supôs que o cerco seria demorado, por isso enviou outros arautos aos aliados, pedindo ajuda urgente. Os lacedemônios acabaram de vencer uma disputa contra os argivos, por Tirea, uma planície no Peloponeso. Curiosa disputa, em que trezentos homens de cada lado se enfrentaram! Os lacedemônios, então, puderam ajudar os lídios, e preparavam-se para isso quando chegou uma mensagem que dizia da captura de Creso. Como foi essa captura? No décimo quarto dia de cerco, Ciro anunciou aos seus homens que um prêmio seria dado a quem primeiro galgasse aquela muralha. O exército tentou, mas não conseguiu. Hiroiades, de um povo persa nômade, reparou num ponto da muralha que estava sem vigilância. Era um lugar escarpado. Meles, o antigo rei de Sardis, havia percorrido toda a muralha da cidade com o leão recém nascido de sua concubina, menos naquele ponto, que lhe pareceu inacessível. Meles havia sido informado que, passando o leão pela muralha, ela seria intransponível. Aconteceu de, durante o cerco, Hiroiades ver um soldado lídio deixar seu elmo rolar encosta abaixo, mas facilmente descer e subir por ali para buscá-lo. Foi por ali que o persa subiu, acompanhado de muitos. Sardis foi tomada.
Referência
Heródoto - Histórias
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