A ameaça persa. Creso se prepara
Heródoto conta que Creso, rei da Lídia, assistindo a expansão do poderio persa sobre a Ásia, na figura de Ciro, buscou ajuda do povo mais poderoso dentre os gregos. O luto de Creso por seu filho já durava dois anos, quando Ciro, filho de Cambises, tirou do poder persa Astíages, filho de Ciaxares, e começou a ganhar territórios para o já enorme império Medo-Persa. Creso, contudo, mantinha-se arrogante, e resolveu testar diferentes oráculos para saber de qual deles obteria a direção a seguir. Enviou emissários para o oráculo de Delfos, para o oráculo de Fócis, para o de Dodona, para o de Anfiáraos e o de Trofonios, todos helênicos. Enviou, também, emissários a um oráculo em Mileto e ao oráculo de Amon, na Líbia, Egito. Seu intuito era testar a credibilidade de todos eles, para então perguntar se lhe seria dada a vitória caso enviasse uma expedição contra os persas. Creso instruiu seus emissários a contarem os dias decorridos desde que saíssem da Lídia e, no centésimo dia, tendo cada um chegado ao seu destino, perguntariam ao deus o que o rei da Lídia estava fazendo naquele momento. Em Delfos, a Pítia proferiu os seguintes versos aos emissários de Creso: "'Conheço o número dos grãos de areia e sei o tamanho do mar; entendo os homens mudos e posso ouvir os que não falam. Veio a mim um certo odor, aquele de uma tartaruga dotada de uma carcaça espessa, que se coze em caldeirões de bronze, sendo misturada com carne de carneiro; o bronze está por baixo, mas há também por cima dele o mesmo bronze'" (Heródoto, Histórias, livro 1. página 40). Os emissários retornaram, trazendo as respostas escritas. O rei leu cada mensagem, e Creso viu verdade apenas na de Delfos e na de Anfiáraos. Cem dias após a saída dos emissários, Creso realmente cozinhou a tartaruga com cordeiro, em panela de bronze, coisa difícil que alguém imaginasse. Creso empenhou-se, então, de agradar ao deus de Delfos, enviando milhares de animais para serem sacrificados, além de uma grande quantidade de ouro e de prata, enviados sob a forma de lingotes ou de estátuas. Uma dessas estátuas era, segundo Plutarco, uma imagem da padeira do palácio da Lídia. Alíates, pai de Creso, havia se casado novamente, e a mulher tentou persuadir a padeira a fazer um pão envenenado, para que Creso morresse e o filho dela chegasse ao trono. A padeira, contudo, revelou o plano, salvando Creso. Junto com as oferendas, Creso mandou aos deuses a pergunta sobre se ele deveria atacar os persas e levar consigo algum aliado. A resposta foi que se Creso enviasse um exército contra os persas, um grande império seria destruído. Creso, um rei presunçoso, não poderia apreender a verdade dessa resposta, apesar de ele acreditar apreende-la. Para o rei lídio, os deuses sempre lhe seriam favoráveis. Na resposta, os deuses também o aconselharam a descobrir os helenos mais poderosos e propor-lhes aliança. Creso mandou um pagamento para cada delfio, e em retribuição, estes concederam prioridade na consulta ao oráculo, isenção de taxas e cidadania délfica a todo lídio. Creso fez uma terceira pergunta ao oráculo, sobre se a soberania dele teria longa duração. A Pítia respondeu: "Logo que um mulo se tornar o rei dos medos, para salvar a vida terá de fugir com teus pés delicados pelas margens do Hermos cheias de pedregulhos; não vaciles, lídio, nem te envergonhes por agir como um covarde." (Heródoto, Histórias, livro 1. página 43) Creso alegrou-se com a resposta, pois para ele um mulo jamais seria o rei dos medos. Ele descobriu que os lacedemônios, de raça dória, e os atenienses, de raça ionia, eram os helenos mais poderosos. Creso descobriu que Pisístrato, filho de Hipócrates, era tirano de Atenas. Hipócrates, até então um simples cidadão, estava em Olímpia para assistir aos jogos. Aconteceu um fato prodigioso: um caldeirão com carnes do sacrifício e água ferveu sem fogo. Quílon, um lacedemônio que estava próximo, aconselhou Hipócrates a não levar para casa uma esposa fecunda ou, se já tivesse uma, que a repudiasse ou, se já tivesse um filho, que o renegasse. Hipócrates não deu importância ao conselho e, após algum tempo, foi pai de Pisístrato. Um dia, os atenienses da costa, chefiados por Megaclés, entraram em conflito com os atenienses da planície, chefiados por Licurgo. Pisístrato, reconhecido por campanhas militares bem sucedidas, organizou uma terceira facção, reunindo habitantes das montanhas. Ele teve a ideia de ferir-se a si mesmo e aos seus mulos, e encaminhar-se para a ágora, onde falou que por pouco escapou dos seus inimigos. O povo deu-lhe uma guarda pessoal e, ajudado por ela, Pisístrato tomou o poder em Atenas. Ele não alterou as leis e governou com sabedoria. Aconteceu, então, de Megacles e Licurgo se unirem para depor e exilar Pisístrato. Em pouco tempo, contudo, os aliados se desentenderam, e Megaclés ofereceu a Pisístrato uma parceria, que devolveria a tirania a este. Para trazer Pisístrato de volta a Atenas, os novos aliados chegaram a um plano ridículo, no entender de Heródoto, pois tomava os helenos como crédulos: no distrito Paianieus havia uma mulher alta e linda chamada Fia. Vestiram-na de todos os paramentos militares e a puseram numa carruagem. Ela se dirigiria a Atenas, precedida por um arauto que dizia que Pisístrato estava de volta, honrado e conduzido pela própria Atena. O plano foi bem sucedido. Os atenienses prostraram-se diante da mortal e acolheram Pisístrato. Ele retomou a tirania e casou-se com a filha de Mégacles. Havia, entretanto, um rumor de que uma maldição pesava sobre a família de Megaclés, e por isso Pisístrato não tinha relações sexuais normais com a esposa. A moça acabou contando isso para a mãe, que contou para Megaclés, que se irritou e retomou a parceria com Licurgo. Pisístrato novamente saiu da Ática, indo para mais ao norte, na Erétria. Pisístrato aconselhou-se com seu filho Hípias, e então passou dez anos recolhendo contribuições de cidades favoráveis a eles. Enfim, pôde arregimentar mercenários lacedemônios. Pisístrato seguiu por Maratona, e os atenienses, ao darem pelo retorno do tirano exilado, foram interceptá-lo. Encontraram-no próximo ao templo de Atena em Palene, na Calcídia. Pisístrato e os atenienses que o buscavam acamparam em frente ao templo. Um adivinho, que estava de passagem, disse a seguinte profecia a Pisístrato: "Foi feito o lançamento pelos pescadores; as suas redes estão tensas; os atuns cairão nelas esta noite, à luz da lua". Pisístrato acatou a profecia e atacou os atenienses, que estavam distraídos e não tiveram outro remédio senão fugir. Sob ordens de Pisístrato, seus filhos foram atrás dos fugitivos e, encontrando-os, convenceu-os a voltarem a Atenas. Pisístrato chegou à cidade e tratou de solidificar sua tirania, contando com mercenários e cobrando tributos. Ele exilou os filhos dos atenienses que insistiram em atacá-lo no seu caminho de volta. Pisístrato passou a governar com todo o poder, tendo conseguido derrubar ou expulsar os seus opositores. Essa história foi recolhida por Creso. Ele também procurou inteirar-se sobre os lacedemônios.
Referencia
Heródoto - Histórias
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