Sobre Dioniso
Dioniso é a vinha que cresce pujante, cheirosa, doadora do vinho, e que logo se dobra, amarelece, seca e volta para dentro da Terra. Zeus uniu-se em amor à princesa de Tebas, Sêmele. Sêmele é um nome não grego, que significa "deusa terra". Outra explicação deste nome é a sua origem em Selene, manifestação da lua. Dioniso também não é um nome grego: sua origem é misteriosa, mas há uma pista no nome Zonnysos, que significa "filho de Zeus". Grávida, Sêmele cantava e dançava, descalça. Hera, sempre ciumenta de Zeus, foi ao encontro dela, sob a forma de sua ama de leite, e falou que ela não conhecia a verdadeira forma de Zeus. Na primeira oportunidade, a princesa insistiu para Zeus mostrar-se, para ela, em sua essência. O deus recusou o quanto pode, mas enfim cedeu. Os raios e os trovões iluminaram o céu, tremeram a terra e incendiaram Sêmele. Zeus imediatamente chamou Hermes, que daquele corpo carbonizado tirou o feto e entregou-o ao pai. Zeus colocou o feto dentro da própria coxa e, em três meses, Dioniso nasceu. Hermes entregou o bebê para Ino, irmã de Sêmele, mas Hera novamente agiu, enlouquecendo a mulher e fazendo-a matar o próprio marido e filhos. Ino afogou-se. Para escapar da perseguição da deusa, Zeus disfarçou Dioniso de bode, e Hermes o levou a Nisa, na Ásia. Numa caverna, a criança foi cuidada pelas ninfas, com a ajuda das Horas, até atingir certa idade e ir viver com as Musas e os silenos. Uma outra história, a respeito de Zagreu, uma entidade cretense identificada a Dioniso, conta que, após ser retirado do corpo de Sêmele, o menino foi entregue por Zeus às curetes. Elas cuidaram dele numa caverna no Monte Ida. Um dia, os titãs esperaram que as curetes dormissem para então atraírem Zagreu para fora da caverna, distraindo-o com brinquedos. No último instante, Zagreu percebeu que os titãs iriam agarrá-lo, e transformou-se em Zeus em pele de cabra. Transformou-se, em seguida, em Crono, e em leão, também em serpente com chifres, e por fim, em touro. Foi quando os titãs o agarraram pelos chifres, o despedaçaram e o devoraram. Atena salvou o coração de Zagreu, Apolo juntou os membros e Zeus, com um raio, fulminou os titãs. Das cinzas deles nasceram os seres humanos. Dioniso correu o mundo grego e a Ásia. Invadiu e conquistou a Índia sem usar força, contando apenas com seu séquito de mênades, mulheres em êxtase, e silenos. Diz-se que Dioniso foi ao Hades buscar a própria mãe, a quem batizou de Tione, "extasiada delirante". É o deus do êxtase delirante, que visita as cidades e inverte a ordem familiar estabelecida por Hera. Uma vez, em Tebas, o culto de Dioniso sofreu a oposição do Rei Penteu, neto de Cadmo, que foi pai de Semele. Sob a influência do deus, as mulheres de Tebas, incluindo Agave, mãe de Penteu, e duas das suas irmãs, foram para as montanhas. O rei tentou prender Dioniso, mas este se soltou facilmente, fazendo com que aquilo que o prendia se enchesse de heras e gavinhas. Dioniso orientou Penteu a disfarçar-se de mulher e ir espiar o que as outras faziam, no meio do mato, e assim ele fez. Olhando para aquelas mulheres nuas, que dançavam e gritavam, como que embriagadas, Penteu julgou tratar-se de uma orgia de Afrodite. A mãe dele o percebeu, escondido, mas o viu sob a forma de um leão. Ela e as demais mulheres o despedaçaram. Tábuas com escrita em Linear B atestam o culto dionisiaco em Creta, inscrições em Delos também atestam-no, afora os registros na Lídia, todos dando conta dessa prática desde, pelo menos, o século XV antes de Cristo. No século V a.C. este culto espalhou-se pela Grécia, sempre com resistência dos lugares onde chegava, por seus sacrifícios animais, às vezes sacrifício de crianças, e principalmente pela embriaguez e inversão do comportamento. Há registros do século IV, encontrados no Monte Liceu, Arcádia, que indicam um ritual em que as participantes eram possuídas por espíritos de animais carniceiros, e comiam seus filhos. Na Beócia, em Orcômeno, as filhas do rei recusaram-se a largar os seus trabalhos no tear e no fuso, arte de Atena Ergane, para ingressarem nas orgias dionisíacas. O deus fez com que suas máquinas se enchessem de heras e gavinhas, e com que serpentes saíssem de seus cestos. Assustadas, uma das moças jurou prestar culto ao deus, e para isso sacrificou o próprio filho. Quatro festivais gregos eram dedicados ao deus: o Anthestéria, ocorrido na Jônia e na Ática e voltado ao consumo de vinho; a Agrionia, na Dória e na Eólia, em que havia a inversão dos papéis femininos, com a revolta de mulheres; a Dionísia, com sacrifício de cabras e touros, e uma procissão do falo gigante; e a Katagogia, em que ocorria o advento do jovem Dioniso por mar. Este festival era uma rememoração do episódio mítico em que piratas tirrenos encontraram um belo jovem perdido numa praia e, supondo se tratar de um filho de nobre, raptaram-no. Em alto mar, o vinho começou a cair do céu, e pelo mastro do navio enroscou-se hera e gavinhas, o que também ocorreu com o leme. A tripulação, assustada, olhou para o jovem e o viu transformado em um grande leão. Os homens pularam no mar, no que foram imediatamente transformados em golfinhos. Há representações desta cena em vasos. O timoneiro permaneceu a bordo, e Dioniso tomou-o em seu séquito. Na Katagogia, o papel deste timoneiro é interpretado por um sacerdote. É comum a associação do vinho ao sangue. O começo disso é a história em que Ikarios, um camponês da Ática aprendeu com o deus o cultivo da vinha e o fabrico do vinho. Os outros camponeses beberam, e começaram a acusar o outro de tê-los envenenado. Dias depois, Erigone encontrou o corpo do marido em uma fonte, e enforcou-se. Em todos os festivais dionisíacos há a licença para a embriaguez pelo vinho. Dioniso se faz presente na vida dos homens para trazer-lhes alegria e fazer-lhes esquecer os problemas cotidianos. As mulheres invertem seus papéis, e os homens, através do uso da máscara do deus, com chifres e barba, borram seus contornos e confundem-se com o deus. Os participantes dos cultos formam uma massa intoxicada, com uma percepção distorcida das coisas e um poder mental ampliado, numa loucura salutar, divina. Nietzsche afirmou que o auge da cultura grega foi a polarização entre o apolíneo e o dionisíaco. Deuses tão diferentes, mas inseparáveis na experiência dos mortais. Apolo é o discernimento que a distância espiritual permite, Dioniso é a mistura com os corpos e a confusão dos sentidos; Apolo é a pureza e a imortalidade. Dioniso é o nascido duas vezes, é a proximidade que a morte tem da vida. Ambos nasceram da Terra, vindos das profundezas, mas Apolo é a afirmação da vida absoluta, e Dioniso é o eterno nascer e perecer.
Referencias
Hinos Homéricos
Walter Burkert - Greek Religion
Walter Otto - Teofania
- Os Deuses da Grécia
Commelin - Mitologia Grega e Romana
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