A Orestéia, de Ésquilo
O século V a.C. foi o auge econômico, político e cultural de Atenas. Em 479, a Liga Délia, liderada por Aristides, ateniense, obteve, numa planície da Beócia, a vitória final sobre os persas. Desde o ano 500, os persas vinham tomando territórios dos gregos, na Anatólia e no mar Egeu, e tentavam adentrar a Grécia central. As cidades-Estado gregas pagavam tributos à cidade que liderava a Liga Délia, liderança esta que já fora dos espartanos e que agora era dos atenienses. A vitória decisiva sobre os persas deu-se pelo uso das trirremes, barcos de guerra leves e, portanto, facilmente manobráveis, que conseguiam pegar de surpresa os barcos inimigos. A maior parte da tripulação das trirremes era de trabalhadores, uma população até então sem participação política em Atenas, e que após a guerra passou a ser reconhecida. Péricles, reformador constitucional e das instituições, permitiu sua participação nas Assembleias, onde as leis eram votadas. Antes disso, a participação política era restrita aos ricos. Atenas recebia tributos de muitas cidades-Estado por proteção contra o retorno dos persas. Seus barcos foram exportados, e sua moeda circulava. Atenas era um império, exercendo um poder e uma influência como a Grécia nunca havia visto.
O regime democrático exigiu a publicidade dos atos políticos, o que foi possível pela generalização do uso da escrita pelos cidadãos. Atenas atraiu intelectuais e artistas de outras regiões, que lá desenvolveram novas ideias e técnicas. Constituiu-se o que será considerada uma nova literatura: Heródoto se estabeleceu e fez a leitura das suas Histórias; sofistas como Protágoras e Górgias apresentaram suas ideias e técnicas de retórica, e obtiveram fama e dinheiro; teatrólogos escreveram e encenaram suas peças, com grande audiência, nas festas Dionisíacas. Grandes festas religiosas, com procissões e sacrifícios, formavam um sentido de comunidade. O gênero literário trágico teve início provavelmente em Corinto ou em Sícion, ligado às festas do deus Dioniso. Em Atenas, o tirano Pisístrato, interessado em agradar a população, tornou as representações das tragédias situações de participação de todos, inclusive de estrangeiros. O Estado financiava e organizava as Dionisíacas, inclusive o teatro. No começo da primavera, em março, as cidades confederadas vinham a Atenas, traziam seus tributos e juntavam-se à plateia. Cada poeta apresentava três peças trágicas e um drama satírico, no mesmo dia. Em três dias encerrava-se o concurso. Votavam dez juízes, um de cada tribo ateniense, e um sorteio escolhia cinco desses dez votos. Assim descobria-se o vencedor.
As festas de Dioniso, ligadas a lugares ermos e ao delírio embriagado, foram incorporadas à pólis. Os deuses possuem aspectos conflitantes entre si: a loucura dionisíaca, por exemplo, pode ser maligna e pode ser benéfica, causar a perdição ou a iluminação. Segundo Torrano, Dioniso compraz-se com o jogo ilusório de visões espetaculares, por isso ele preside o teatro. A representação, a mímesis, é atuar como outra pessoa, através de máscara, roupas e trejeitos. Dioniso é o deus desta mudança de personalidade, e também do transe embriagado e místico. Platão ressaltou, no Fedro, o benefício para os homens da loucura divina, que os inspira em suas poiesis. O teatro trágico é uma confluência da poesia épica, com seus temas e personagens, com a poesia lírica, que possui o canto coral e o ponto de vista humano. Na poesia épica, o cantor era o porta-voz das Musas, ou seja, o canto tratava de coisas não vistas pelos homens, mas que fundamentavam as suas vidas. Os deuses eram originários, oniscientes e sábios. Já na poesia lírica, mantendo a inspiração divina, o cantor tratava de suas opiniões e sentimentos pessoais.
A tragédia retomava os deuses e os heróis homéricos e punha-os para a contemplação do público. Pontos não desenvolvidos por Homero, mas indicados por ele (“O que aconteceu com as mulheres troianas, após o fim da guerra?”, “Como se deu a morte de Ájax?”, “E a morte de Agamenon?”, por exemplo) eram desdobrados em novos enredos. A vontade dos deuses, a moral dos heróis e os limites da vida dos mortais eram interrogados. Mas, segundo Romilly, esta nova literatura será essencialmente política, pois se dirigirá à cidade, aos problemas dela. Além disso, os cidadãos interpretarão os papéis, inclusive o papel do coro, que representa a própria perspectiva cidadã. Segundo Torrano, a tragédia grega faz uma superposição de tempos: o tempo de Homero, o auge da poesia épica no século VIII, e o tempo da democracia, a Atenas do século V. As histórias cantadas para os nobres, que exaltavam a virtude do herói e da nobreza, serão retomadas num contexto em que os cidadãos discutiam e votavam as suas leis, elaboravam a sua justiça, que deveria corresponder à Justiça de Zeus. A cólera e as artimanhas do herói eram problemáticas em relação à moderação e à valorização política do discurso, como virtudes cidadãs.
Conforme Torrano, a tragédia apresentava uma dialética pré-filosófica, situando e pondo em conflito os pontos de vista dos quatro graus da hierarquia tradicional entre os gregos: Deuses, Numes, heróis e cidadãos. No palco, os personagens exprimiam-se em versos falados (trímetros jâmbicos, em geral) e participavam da ação. Já o coro era composto de 12 a 15 pessoas, que cantavam segundo metros líricos e não tomavam parte no que acontecia. Os episódios eram intercalados com os cantos do coro. A multiplicidade de indivíduos anônimos que compunham o coro era unificada numa identidade coletiva, impessoal, e sua atitude ante as ações dos heróis era ora crítica, ora admirativa. Os heróis passavam pela reviravolta e pelo reconhecimento (os dois aspectos essenciais do enredo da tragédia, de acordo com Aristóteles). Possuíam certa proximidade com os deuses, que podiam orientá-los, protegê-los ou persegui-los, e que conduziam-nos ao seu notável destino. A conduta excessiva dos heróis era contrabalançada pelo coro que, falando a partir do ponto de vista da pólis, louvava a medida e a prudência. Mas, diferentemente dos demais mortais, para cumprir os seus desígnios, o herói não esmorecia ante a ruína e até arriscava a própria vida. A obstinação, a cólera, a astúcia e a grande riqueza tinham sua pertinência para a cidade postas em questão, nas peças.
Aristóteles, na Poética, define as partes que compõem a tragédia: o Prólogo antecede a entrada do coro, e é um monólogo em que se apresenta, em linhas gerais, o cenário, os personagens e a situação; entra o coro, e ele profere o Párodo, no qual evocam-se os deuses envolvidos na história, relembram-se fatos passados e manifestam-se temores quanto ao porvir. Nesta parte, o coro canta e dança num mesmo ritmo, movendo-se pelo palco; ocorre o Primeiro Episódio, em que vemos a interação dos personagens e o desenvolvimento da trama; alternando com os Episódios, o coro profere os Estásimos, que são como os Párodos, mas são cantos e danças sem mudar de lugar; há, ainda, o Kommós, onde o coro e os atores fazem o canto fúnebre, e o Êxodo ou a saída do coro, de cena.
Dos principais tragediógrafos, Eurípides, Sófocles e Ésquilo, a maior parte das peças foi perdida, para nós. De Ésquilo, restaram sete. Ele nasceu em 525, em Elêusis, e combateu nas Guerras Persas (nas batalhas de Maratona, em 490, e em Salamina, em 480). Morreu na Sicília, em 456. Seu epitáfio menciona como o seu maior feito a participação em Maratona. Essa experiência marcou a sua escrita: a peça “Os Persas”, a primeira que nos chegou, conta, para os atenienses orgulhosos de seu império, os sofrimentos dos persas ao serem derrotados. Nas peças de Ésquilo há os saques, as destruições e as mortes decorrentes da guerra. Ao seu público, através do coro, ele condena a hybris conquistadora e tirânica, e também a hybris do povo sem disciplina. Através dos deuses, Ésquilo aponta para a moral, as leis e as instituições que proporcionam prosperidade. Os deuses devem ser reconhecidos em seu poder e dádivas, pois sua cólera pode destruir tudo. O homem não pode viver sem temor, pois isso leva ao desgoverno e à destruição. A cólera e a onipotência divinas fundam-se numa ordem. “Ela (a justiça divina) constitui até a própria mola das tragédias; dado que qualquer desastre tem um sentido, as personagens são apanhadas na angústia de fazer o bem, no horror de ter agido mal e de compreenderem o seu erro muito tarde. Deste modo, cada gesto recebe como que um prolongamento sagrado; e o homem é terrivelmente responsável sem ser, contudo, senhor do seu destino.” (Romilly, p. 98)
“Saber por sofrer”, a Justiça de Zeus se manifesta no curso dos acontecimentos e será revelada para o herói, quando ele a sofrer. O fundamento do Todo, o que mantém as coisas unidas, é a Justiça de Zeus, e essa verdade passa a ser sabida pelo herói como pathos. Os atos têm causas e consequências, e estas têm sentido numa justiça que, apesar de estar além do entendimento do homem, inspira uma moral e instituições que ele conhece bem. Ésquilo interroga o destino dos mortais, na intrincada relação entre o que eles fazem, o que os deuses determinam que eles façam e a perseguição implacável que eles passam a sofrer. Os homens estão entre caçadores e presas selvagens, atores de lances sangrentos e espetaculares, e portadores de palavras grandiosas, sagradas.
Das peças que Ésquilo produziu, três podem ser lidas como uma trilogia, a Oresteia. Esta peça deu ao autor o primeiro lugar nas Dionísias de 458. Ela trata do retorno de Agamenon para seu palácio, em Argos, da morte dele pelas mãos de Egisto e Clitemnestra, esposa do rei e rainha de Argos, da vingança de Orestes, filho do casal, e do julgamento de Orestes. Agamenon foi o comandante vitorioso da grande expedição grega que sitiou Tróia ao longo de nove anos. Homero contou, em linhas gerais, o destino dele: “Soubeste em Ítaca, que assim que chega o atrida, Egisto o enreda em catastrófica desdita? Herói de sorte é o que deixou herdeiro homem que pune o matador do nobre pai: nas mãos de Orestes, decaiu o sinuoso Egisto, que paga miseravelmente o que devia.” (Odisseia, canto III, versos 191-196) Isto foi contado pelo velho Nestor a Telêmaco, jovem filho de Odisseu, que estava em consultas aos companheiros do herói a respeito de notícias do pai. Ésquilo desenvolveu o caso, transformando-o num embate entre uma justiça puramente vingativa e uma justiça iluminada e possível de ser instituída na cidade. O desfecho trágico de Agamenon vincula-se à maldição dos atridas, às Erínies que habitam o palácio deles e que jamais saciam sua sede de sangue.
A história da maldição dos atridas inicia com Tântalo, filho de Zeus e de Pluto, e rei da Lídia. Tântalo era admitido nos banquetes dos deuses, onde se servia néctar e ambrosia. Certo dia, ele surrupiou parte desses manjares e os levou para os mortais experimentarem. Antes desse ato, porém, ele já havia cometido outra falta com os deuses olímpicos: convidou-os para um banquete no monte Sípilo, mas ele percebeu que a quantidade de comida não seria suficiente. Tântalo matou e esquartejou seu próprio filho, Pélope, e aumentou o guisado. Os deuses perceberam o logro e recusaram a carne. Zeus arruinou o reino de Tântalo e o condenou a eternamente ficar dependurado numa árvore. Tântalo não conseguia jamais pegar uma fruta para aplacar a sua fome, pois o vento afastava os galhos quando a mão dele se movia, E jamais conseguia aplacar a sua sede, pois, quando a maré subia e ele tentava abaixar o queixo, rapidamente o mar voltava a baixar. Como se esse castigo não fosse o bastante, uma enorme pedra fica suspensa sobre a cabeça de Tântalo, como punição pela vez em que ele roubou Zeus e perjurou. Zeus era uma criança de colo, e Hefesto forjou para Reia, a mãe, um mastim de ouro para zelar pela criança. Pandareu roubou o mastim e escondeu-o com Tântalo. Quando a poeira baixou, Pandareu pediu o mastim, mas o outro jurou por Zeus que jamais vira um cão de ouro. Zeus enviou Hermes, que descobriu o mastim e levou-o de volta ao dono. Tântalo teve, então, sua paga.
Pélope foi reconstituído pelos deuses e assumiu o reinado dos lídios e dos frígios. Em certo momento, Pélope foi expulso pelos bárbaros e, carregando seus tesouros, vagou pelo mar Egeu. Chegando na Élida, no Peloponeso, Pélope encantou-se pela princesa Hipodâmia. Tendo sido informado por um oráculo de que seu genro o mataria, o rei Enômao desafiava cada pretendente da filha a uma corrida de carro pelo istmo de Corinto. A princesa corria junto com o pretendente, para distraí-lo. O rei concedia ao adversário uma vantagem de meia hora. Se o rei alcançasse o pretendente, o matava, do contrário, se o pretendente vencia, ganhava a donzela e matava o rei. As éguas de Enômao eram as melhores da Grécia, e o seu carro era especial para corridas. Quando Pélope chegou, os portões do palácio real eram enfeitados por treze cabeças encravadas, dos pretendentes mortos. Os deuses resolveram intervir, pois Enômao pretendia construir um templo usando os crânios. Pélope suplicou a Poseidon, e recebeu um carro de ouro, puxado por cavalos alados imortais. O herói prometeu a Mírtilo, cocheiro do rei, em troca de ajuda, metade do reino e a primeira noite de núpcias de Hipodâmia. Mírtilo substituiu as cavilhas dos eixos do carro de Enômao por peças de cera. Durante a corrida, Enômao e Pélope estavam próximos à chegada, quando o perverso rei ergueu a lança para acertar o audacioso jovem. As rodas se soltaram, e o rei caiu e morreu, não sem antes rogar que o cocheiro morresse pelas mãos de Pélope.
O novo casal e o cocheiro começaram uma viagem. A certa altura, Mírtilo tentou violar Hipodâmia. Perto de Eubeia, Pélope o jogou no mar, mas foi por ele amaldiçoado. Pélope ocupou o trono da Élida e, depois de algumas conquistas, mudou o nome da Ápia para Peloponeso, “ilha de Pélope”. Dentre os filhos de Pélope e Hipodâmia estão Atreu e Tiestes. Pélope teve um filho fora do casamento, com uma ninfa, chamado Crisipo. Quando Laio foi desterrado de Tebas, Pélope o acolheu. Laio se enamorou de Crisipo e, quando o desterro daquele foi suspenso, ele quis levar seu amado para Tebas. Hipodâmia não queria que Pélope fizesse de Crisipo o seu sucessor ao trono, por isso tentou convencer Atreu e Tiestes a matá-lo, mas eles se recusaram. Na madrugada, Hipodâmia entrou no quarto de Laio e Crisipo, pegou a espada de Laio e matou Crisipo. Mas ele, antes de morrer, acusou Hipodâmia, fazendo-a fugir para a Argólida, e lá ela se matou. Atreu foi para Micenas, e nomeado regente durante a ausência do rei Euristeu. Euristeu havia ido combater os filhos de Héracles. Com a notícia da sua morte, Atreu foi escolhido para ser o rei de Micenas. A fim de obter proteção, Atreu prometeu a Ártemis a melhor ovelha dos seus rebanhos. Hermes era pai do cocheiro Mírtilo, e queria vingar-se dos pelópidas. Pediu a Pã que fizesse aparecer, nos rebanhos que Pélope deixou para Atreu e Tiestes, um cordeiro com um velocino de ouro. Hermes previu que Atreu reclamaria o cordeiro para si, e ainda o negaria a Ártemis. Atreu, sim, sacrificou o animal à deusa, mas guardou o velocino numa arca. Ele vangloriava-se do seu tesouro, e baseando-se nisso, e no seu direito de descendente, reclamava o trono de Micenas. Tiestes, que havia tramado com a esposa de Atreu, apaixonada por ele, perguntou ao irmão se ele declarava que o dono do cordeiro deveria ser o rei. O templo foi decorado, canções de louvor foram entoadas para o cordeiro especial. Tiestes, de posse do velocino, ergueu o rico objeto e acusou Atreu de farsante. Tiestes foi declarado rei de Micenas. Zeus, contudo, era favorável a Atreu, e mandou Hermes perguntar a Tiestes se ele renunciaria ao trono caso o sol, uma vez, se movesse ao contrário. Naquela noite, o sol se pôs a leste. Atreu voltou ao trono e desterrou Tiestes. Algum tempo depois, o rei enviou um mensageiro para oferecer a Tiestes anistia e metade do reino. Para o jantar de reunião, Atreu havia mandado matar, esquartejar e servir os três filhos do irmão. Tiestes comeu à farta. Após o jantar, Atreu mandou que trouxessem em bandejas as cabeças, os pés e as mãos dos filhos de Tiestes. O desgraçado pai caiu para trás, vomitando. Amaldiçoou a estirpe de Atreu. Este foi o terrível crime que originou a famigerada “maldição dos atridas”.
Tiestes fugiu para Sícion, local onde Pelópia, sua filha, era sacerdotisa. Consultando um oráculo, Tiestes foi aconselhado a conceber um filho com ela, para conseguir se vingar de Atreu. Tiestes violou a filha durante um banho dela. Ele usava máscara. Sem que ele percebesse, ela pegou a espada dele e a escondeu. Atreu, por sua vez, também consultando um oráculo, ouviu que deveria fazer Tiestes voltar de Sícion. Visitando o local, Atreu apaixonou-se por Pelópia, a quem ele tomava como filha do rei Tesproto. Pelópia deu à luz ao filho feito por Tiestes, e abandonou-o numa montanha. Egisto foi cuidado por pastores e amamentando por uma cabra, até que Atreu o tomou como seu próprio filho. Alguns anos depois, Micenas começou a ter más colheitas. Atreu mandou seus filhos Agamenon e Menelau para consultar o oráculo, a fim de saberem o paradeiro de Tiestes. Para a surpresa dos irmãos, no caminho para Delfos encontraram Tiestes. Levaram-no preso para Micenas. Atreu ordenou que Egisto, então com sete anos, entrasse na cela e matasse o preso durante o sono. Tiestes acordou antes do ataque, e derrubou a criança. Pegou a espada e, surpreso, reconheceu a sua espada perdida. Como ela foi parar naquele palácio? Tiestes agarrou Egisto e interrogou-o. Soube que a espada era da mãe dele, Pelópia. Tiestes ordenou Egisto que lhe trouxesse a mãe. Ao se reencontrarem, Tiestes e Pelópia se abraçaram, emocionados. Ele perguntou como a filha obteve aquela espada. Antes que a mulher respondesse, o homem disse que a espada era dele, e que estava desaparecida. Pelópia agarrou a arma e se matou, na frente do pai. Tiestes ordenou Egisto, que assistia tudo boquiaberto, a levar a espada a Atreu. A arma ensanguentada fez Atreu pensar que Tiestes estava morto. O rei fez um sacrifício agradecendo a Zeus. Enquanto isso, Egisto voltou ao calabouço. Tiestes revelou ao menino que era o pai dele, e mandou-o matar Atreu. Dito e feito: Egisto matou Atreu e Tiestes mais uma vez subiu ao trono de Micenas.
Nesta versão da história, como visto, Agamenon e Menelau já eram homens. Para prosseguirmos com a história, precisamos ir por outra versão: os filhos de Atreu eram crianças quando ele foi morto por Egisto. A pajem dos meninos os salvou, levando-os para o palácio de Eneu, rei da Etólia. Após alguns anos em segurança, o rei Tíndaro, de Esparta, marchou contra Micenas e obrigou Tiestes a jurar que passaria o cetro a Agamenon, por ele ser o filho de Atreu. Tiestes fugiu para Citera e Egisto, para Argos. A casa de Atreu enriqueceu com os tributos pagos por diversas cidades próximas. Num dado momento, rei Agamenon entrou em guerra contra Tântalo, rei de Pisa. Matou-o e casou-se à força com Clitemnestra, a viúva. Clitemenstra era filha do rei Tíndaro. Os Dióscuros, irmãos de Clitemnestra, atacaram Micenas, mas Agamenon os venceu. Rei Tíndaro deu Helena para casar-se com Menelau, irmão de Agamenon, e passou-lhe o trono de Esparta.
Passaram-se anos com esta configuração: Agamenon era rei de Micenas, casado com Clitemnestra e pai de Orestes, Electra, Ifigênia e Crisotêmis; Menelau era rei de Esparta, casado com Helena e pai de Hermíone. O palácio dos atridas guarda um mal: Agamenon herdou de Atreu o castigo por este ter matado seus sobrinhos e feito seu irmão comê-los. As Erínies são deusas vingadoras do sangue familiar derramado, e elas jamais se saciam: impregnam o local onde o sangue molhou o chão e tratam de fazer com que o chão continue molhado de sangue, ou seja, após matarem alguém, elas passam a perseguir-lhe o descendente. Elas são uma forma de zelo familiar ultrajado, sempre magoado, insatisfeito e raivoso. O âmbito de atuação delas é o do zelo entre familiares, o que leva a família à prosperidade. Mas, se ultrajado, leva à destruição. O lugar onde isso é desenvolvido é a trilogia Oresteia, de Ésquilo. A Oresteia é formada pelas peças Agamemnon, Coéforas e Eumênides. Passamos agora a um resumo do que ocorre em cada uma delas:
Agamemnon - Prólogo: o vigia do palácio dos atridas, em Argos, está há um ano sobre o teto, à espera de um sinal de fogo, indicativo do fim da Guerra de Tróia e, talvez, do retorno do rei Agamenon. O homem diz ser um cão, obrigado a ser incansável na vigília, obrigado a não dormir e sonhar. Mas ele diz conhecer a ágora dos astros noturnos, que dão inverno e verão aos mortais e que sabem tudo o que acontece na terra. No céu há mais comunicação do que na terra, naqueles tempos incertos. O sinal, enfim, se faz ver, na forma de uma fogueira acesa ao longe. O vigia grita, dando a notícia; Párodo Anapéstico: o coro, composto por velhos, relembra os acontecimentos quando da partida da expedição dos aqueus a Tróia. Os dois atridas para lá foram, como duas aves punidoras do roubo de Helena por Páris. Duas águias caçaram e comeram uma lebre prenha, um sinal lido pelo adivinho como a concessão, pelos deuses, da vitória dos atridas sobre Tróia. A gravidez da lebre e a ferocidade dos caçadores, porém, indica a precocidade e a crueza dessa vitória, o que desagrada os deuses e traz malefícios. Ártemis, deusa protetora das crias dos animais selvagens, e também guardiã das fronteiras, tentou impedir a partida das naus dos aqueus, mandando ventos impossíveis de serem vencidos; Párodo Lírico: Impetuosos pássaros foram à Tróia. No sinal, um era branco, o outro, negro. O pássaro negro, impetuoso e descontrolado, foi na frente do outro. Se aquela interpretação do sinal divino estiver certa, eles arrasaram Tróia, mataram todos. Ártemis tentou impedir o avanço dos cães alados de Zeus, os dois irmãos que foram cobrar pelo crime de não hospitalidade, cometido por Páris. Para liberar a partida das naus, a deusa cobrou de Agamemnon um sacrifício, algo em troca: Que ele entregue a própria filha pelos filhos da lebre, por Tróia. O rei considera lícita tal demência, e manda erguerem Ifigênia feito uma cabra, um animal a ser sacrificado. O coro lembra disso tudo e pede a Zeus um bom porvir; Primeiro Episódio: Assim que ouviu sobre o sinal, Clitemnestra mandou fazerem sacrifícios em agradecimento pela vitória dos aqueus. O coro pergunta a ela as boas novas. Ela diz que a vitória é deles. Os cidadãos não acreditam na rainha. A guerra é feita de sortes díspares, ela diz, mas mesmo o vencedor, caso extrapole os seus limites, será cobrado pelos deuses; Primeiro Estásimo: O sinal divino, aquele das águias, fica ainda mais claro para o coro. Zeus pune os homens que agem sem justiça, que matam multidões e destroem templos. As Partes, doadoras de bem e mal aos homens, podem tanto ser filhas de Zeus quanto filhas da Noite. Ou seja, a justiça, como restabelecimento da ordem, não é benfazeja para os que agem como cães raivosos. Os cães raivosos agem impulsivamente, sem ouvirem oráculos e procurarem uma interpretação. A justiça de Zeus se dá por meio da linguagem; Segundo Episódio: Chega o arauto e diz salves à Terra, à luz do Sol, a Zeus e a Apolo. Anuncia a vinda do rei, que trará luz para a noite. Agamenon lavrou Tróia com a enxada de Zeus. Páris, o caçador do lado de lá, foi caçado e perdeu sua presa; Segundo Estásimo: A soberbia de Páris, relativa à riqueza do seu país, pariu a soberbia nova, dos aqueus, que a destruiu; Terceiro Episódio: Agamenon chega, gabando-se de ter feito justiça em Tróia. Clitemnestra fala suas dores de mulher que foi deixada sozinha. A rainha manda que os servos estendam um tapete púrpura para o rei. Ele se recusa a andar como um deus. O louvor deve vir dos outros. A rainha diz que quem não desperta inveja não merece zelo, e o rei facilmente acata; Terceiro Estásimo: O coro repete que a imoderação dos homens é punida por Zeus; Quarto Episódio: Cassandra, filha de Príamo que foi trazida por Agamemnon como sua escrava, aparece diante de todos. A rainha manda que ela entre no palácio, e diz que as ovelhas já estão prontas para o sacrifício. A estrangeira permanece calada, como uma fera capturada, segundo o coro. A rainha irrita-se com ela, e entra no palácio. Cassandra, profetiza castigada por Apolo com a descrença de quem a ouve, evoca o deus, queixando-se de não ter sido livrada do jugo da escravidão. A moça vê e afirma que o palácio dos atridas odeia deus e tem o chão úmido de sangue. O coro responde que ela é um cão que fareja morticínios, dos quais ele se lembra. Cassandra prevê os crimes futuros, incluindo o assassinato dela, mas o coro não a entende. O palácio é habitação das Erínies, ela vê, e também às crianças segurando os próprios intestinos e o leão covarde que espera a hora de pegar o rei. Isso é merecido, ela sente, pelo que foi feito de Tróia. Por que ela não foge, pergunta o coro. É o destino, ela responde, além do que aqueles que a matarem, e matarem o rei, serão mortos pelo filho que retornará ao palácio; Anapestos do Coro: O coro pergunta que mortal nasce com incólume destino, se responde por sangue antigo. Cada homem parece ser presa de caçadas anteriores; Diálogo dos Coreutas: Agamenon grita. Os coreutas decidem o que fazer. Entrar no palácio? Esperar para saber o que aconteceu? Aceitar a tirania que emerge?; Quinto Episódio: Clitemenstra, despreocupada, descreve como matou o rei, como oferenda a Zeus Subterrâneo. O coro suspeita que ela esteja drogada. Ela não teme o exílio? Clitemnestra se indigna com a reação dos cidadãos, pois eles não censuraram do mesmo modo o crime de Agamemnon contra Ifigênia. Como a caçadora da vez, a rainha diz ter vingado este crime, e afirma que sentirá maior prazer na cama com Egisto, seu comparsa; Último Episódio: Egisto relembra o crime de Atreu, e afirma a justiça do seu ato. O coro diz que ele não será poupado por Zeus e pelas pragas do povo. Egisto os ameaça. Castigará os renitentes. O coro anseia pela vinda de Orestes.
Segundo Vidal-Naquet, Agamenon é um caçador-caçado: da mesma maneira que as águias pegaram e devoraram a lebre que estava prenha, ele jogou uma tarrafa sobre Tróia, e nem crianças escaparam da chacina. Ártemis, protetora dos filhotes dos animais, cobrou Agamenon antecipadamente, e então ele sacrificou a própria filha à deusa. Tratam-se de mortes de vítimas cruas, como faz o caçador selvagem, o animal. Ifigênia implorou para não ser morta, e isso maculou o sacrifício. Nos sacrifícios rituais, o boi é feito abaixar a cabeça, como que consentindo em morrer. Como um animal selvagem, também Agamenon foi morto, pois Clitemnestra, ao invés de lhe jogar a toalha, jogou sobre ele uma rede enquanto ele tomava banho. O rei acuado foi facilmente esfaqueado por Egisto. Podemos inverter aquela fórmula: Agamenon é um caçado-caçador. Seus atos não fizeram outra coisa que responder ao grande crime do seu pai: ele matou Tântalo e tomou a viúva, Clitemnestra, como esposa; ele sacrificou a própria filha, jovem demais; ele se excedeu na punição a Tróia, pelo rapto de Helena (o excesso dos helenos na Guerra de Tróia é apontado por Heródoto como a origem da oposição insolúvel entre helenos e orientais). Crimes passados levaram a crimes presentes e levarão a crimes futuros. Tudo que Agamenon fez foi para cumprir seu destino, para o levar ao covil de Clitemnestra e Egisto. Cassandra sentiu, vindo do palácio, cheiro de carniça, como se ali fosse repasto de animais. Os sacrifícios apropriados acontecem com a queima da carne, o cheiro é de gordura e ossos queimados. No palácio dos atridas, o cheiro era nauseabundo, indicando que uma fera insaciável e terrível ali habita.
Coéforas - Prólogo: Orestes está diante do túmulo do pai. A Hermes Ctônio, ele pede aliança. Ao pai morto, diz que não esteve presente no séquito fúnebre, e deixa uma trança tirada do seu cabelo. Aparece um grupo de mulheres com mantos negros. Elas vêm para fazer libações ao morto ou para aumentar o pesar do palácio? Orestes pede a Zeus poder punir a morte do pai; Párodo: O coro é formado pelas coéforas, mulheres escravas que habitam a cidade. Elas estão ali para prantear o morto e trazer libações. Param diante do túmulo, gritam, arranham o próprio rosto e o peito, rasgam as roupas que vestem. Um adivinho esteve ali e ouviu um terrível grito do palácio, elas lembram. Foi um pesadelo da rainha. O palácio já foi reverenciado pelo povo, agora o povo o repulsa. É que sangue após sangue cai sobre aquela terra, e não chega a correr, rapidamente coagula. A Terra não o recebe, ele não flui. Fica estagnado como poluência, lama. Trevas recobrem o palácio, e as carpideiras devem manter luto sobre a sorte dos senhores; Primeiro Episódio - Primeira Parte: Electra, irmã de Orestes, aparece próxima ao túmulo do pai. Às coéforas ela pergunta como deve proceder, o que falar. As coéforas dizem que elas e a jovem têm em comum o ódio, e que, numa prece, todos aqueles que odeiam Egisto precisam ser lembrados. Electra deve pedir que um Nume ou um mortal mate o culpado do crime. Ela chama Hermes Ctônio, os subterrâneos Numes que vigiam o palácio, a Terra e, por fim, pede ao pai que faça Orestes vir. A jovem repara na trança deixada sobre o túmulo. Neste momento, seu irmão se aproxima. Orestes chama Zeus, para que ele veja a prole órfã da águia morta pela víbora. A interpretação do adivinho para aquele sinal divino foi, portanto, aceita por Orestes: o pai é um caçador, mas tornou-se presa de um caçador mais perigoso. Este segundo caçador também deixou filhos desamparados. Não seria o caso de Ártemis cobrar por esse crime? Orestes afirma que está ali para cumprir um oráculo de Lóxias, Apolo da fala misteriosa. O oráculo do deus diz que Orestes será perseguido pelas Erínias do pai, e cairá em erronia, caso não mate a mãe; Kommós: Os irmãos, em oração ao pai, lembram o quanto ele foi um bom líder mas sofreu uma grande desonra em casa. Que Zeus envie erronia dos ínferos aos perversos, e que ele, Orestes, acompanhado dos Numes, puna a criminosa!; Primeiro Episódio - Conclusão: Orestes se coloca como a continuidade das sementes dos pelópidas. Através delas, Agamenon não está morto, mesmo estando morto. O coro conta o sonho de Clitemnestra, sonho que ela teve dias antes: ela pariu uma serpente e a aninhou no peito. A serpente então a mordeu, fazendo o sangue escorrer junto do leite. Ao ouvir isso, Orestes assume ser a serpente; Primeiro Estásimo: O coro fala de diversos casos, de diversas dores, inserindo as do palácio dos atridas na história. Que mortal está livre de sofrimento?; Segundo Episódio: Orestes e Pílades, seu fiel amigo, apresentam-se no palácio como estrangeiros, desconhecidos. Dizem à rainha que ouviram do rei da Fócida, para onde Orestes fora enviado por sua mãe, que ele está morto. A rainha lamenta a sorte do palácio. Ela manda que os hóspedes sejam instalados. A ama de Orestes sofre a perda dele. Orestes, disfarçado, pede para falar com Egisto. A ama considera chamar o novo rei junto de dois soldados, mas o coro a dissuade disso. Egisto deve ir sozinho para o quarto dos hóspedes que, como vemos, não perdem tempo ao executar seu plano; Segundo Estásimo: O coro pede a Zeus por Justiça nas ações do filho que retorna; Terceiro Episódio: Egisto encontra-se com os hóspedes. O coro reflete sobre a disputa que ocorre no palácio, que é entre destruição e liberdade, poluição e luz. Dali a pouco ouve-se um grito. Um servo manda que abram a porta do quarto da rainha, para que o pescoço dela também caia. O povo, dentro e fora do palácio, espera que aconteça o que está para acontecer, pois a nuvem que cobre o palácio também cobre Argos. Clitemnestra aparece segurando um machado. Orestes diz o seu propósito, e ela mostra-lhe um seio. O herói pergunta a Pílades o que deve fazer. O amigo lembra-o de que todos lhe são hostis, menos Apolo, e este tem um oráculo a ser cumprido. Clitemnestra ameaça Orestes com as suas cadelas, mas ele afirma que as Erínies já estão no seu encalço, insistindo para que vingue o pai. A mãe tenta se justificar, mas é passada ao fio da espada; Terceiro Estásimo: O coro exulta, e clama pelo reerguimento do palácio; Último Episódio: Orestes lembra os crimes da mãe, e que a justiça foi feita. Contudo, o coro aponta para a permanência dos males. Orestes decapitou serpentes. Neste momento, mulheres horrendas como Górgonas, vestidas de negro e com tranças de serpentes na cabeça, aparecem para Orestes. Ele fica apavorado, pois são as cadelas da mãe que não demoraram em vir assediá-lo.
As Erínies são filhas da Noite. Elas são vingadoras do sangue familiar derramado, da falha na hospitalidade e da impiedade para com os deuses. Elas são incansáveis na perseguição e inexoráveis na punição dos infratores, tratando a justiça como uma caça. Residindo no palácio dos atridas, elas empurram os homens a caçar uns aos outros, a oferecer a elas mais sangue.
Eumênides - Prólogo: A pítia relembra a sequência de deuses que já comandaram o oráculo, até Apolo. Ela repara num homem dormindo no recesso do templo, com a espada puxada e ensanguentada. Terrível de se ver é o hediondo grupo de mulheres que também dormem ali. Aquele homem foi perseguido pelas mulheres, e se abrigou. Mas a cena que resultou disso parece mais a de um encontro sexual. A pítia diz que aquele homem traz poluência ao templo, e as Górgones não deveriam estar ali, pois são deuses ctônios. Orestes acorda e pede uma garantia a Apolo. O deus lhe afiança o crime que ele cometeu, e procede à sua purificação. Agora ele precisa ir ao templo de Atenas, buscar a ajuda da deusa. Enquanto isso, o fantasma de Clitemnestra, dos ínferos onde ele está, ordena que as suas cadelas acordem e não percam o alcance de Orestes; Párodo: As Erínies acordam. Elas reivindicam o direito sobre o matricida, direito no qual sofrem a interferência dos deuses novos. Até aceitá-lo no oráculo eles aceitam!; Primeiro Episódio: Apolo expulsa as Erínies. Elas acusam o deus de ter persuadido Orestes a matar a mãe. Apolo responde que a morta é assassina do marido, e que se as Erínies desconsideram esse crime, também desconsideram os dons de Afrodite, os maiores que há para os mortais. Enquanto isso, Orestes apresenta-se para Atena, afirmando estar limpo e se dizendo obediente a ele. A saída do regime de caça e caçador, que é o mundo das Erínies, é a purificação e o ingresso no mundo da escuta da fala divina; Epipárodo: As Erínies farejam sangue em Orestes. O moço se pensa limpo, Atena o considera limpo, mas os sentidos das Fúrias são baixos, não são o da visão; Segundo Episódio: Orestes diz à deusa que foi instruído entre males. Com isso, ele diz o princípio do herói da tragédia, que é o saber por sofrer. Orestes afirma saber a hora de falar e de calar, ou seja, apresenta-se como pronto a dirigir aos deuses louvores e súplicas, e a ouvir deles oráculos e exortações. Além disso, Orestes estende essa obediência à deusa a toda Argos; Primeiro Estásimo: As Erínies evocam a mãe Noite para reafirmar a parte que lhes cabe, que é punir os impuros. Apolo e Atena não lhe roubarão a vítima; Terceiro Episódio: Atena repara naquelas mulheres hediondas. Quem elas são? A deusa sabe, mas quer que elas se apresentem. Estes são os preparativos do tribunal a ser instaurado para julgar o caso, e que ficará de herança para Atenas. As Erínies dizem sua origem, função e o que querem. Atena, então, passa a palavra a Orestes. O moço afirma sua pureza, piedade e conta a previsão de Apolo para ele; Segundo Estásimo: Que justiça prevalecerá? Atena chama os cidadãos de Atenas para comporem o juri. O tribunal terá a mesma configuração da peça, tendo a voz dos deuses, dos Numes, dos heróis e dos cidadãos. As Erínies vaticinam que, caso o matricida saia impune, a cidade perderá: os filhos agredirão os pais, os estrangeiros serão expulsos e os deuses serão desconsiderados. Com essa fala, elas pretendem comunicar aos cidadãos a importância da justiça delas. A Atena, que se preocupa com a administração da cidade, a fala das Erínies, apesar de não poder ser dominante, lembra-a sobre o medo, um fator importante para a vida pública quando é transformado em reverência. Quarto Episódio: Apolo diz, no julgamento, ser o responsável pelo ato de Orestes. Ele faz um pequeno discurso de defesa. As Erínies, por sua vez, não fazem um discurso, e sim um jogo de perguntas e respostas rápidas com Orestes. O rapaz confirma ter matado a mãe, mas para atender a um oráculo de Apolo. Ele foi empurrado à vingança, por ela ter matado seu pai. Apolo lembra aos presentes que o seu oráculo é a palavra de Zeus. Apolo e Erínies discutem a própria justiça de Zeus. Atena dirige-se aos cidadãos e enuncia a sua lei, baseada em reverência e pavor. Um desses não pode vir sem o outro, pois ambos são necessários para a vida comunitária, incluindo a justa participação das divindades. As Erínies, por exemplo, agem apenas pelo pavor. Isso não permite que os mortais sintam bem querer e piedade, quanto aos deuses, e que honrem os próprios pais. O pavor, sozinho, leva ao despotismo, e reverência, sozinha, leva ao desgoverno. As Erínies ameaçam os cidadãos da falta das suas leis inexoráveis. Apolo lembra-os das suas leis luminosas. Orestes é enfim absolvido pelo tribunal, num empate decidido por Atena. Ele agradece ter sido reintegrado à sua cidade, e promete que Argos nunca atacará Atenas; Kommós: As Erínias se lamentam pela desonra sofrida, e ameaçam a terra com venenoso sangue. Pais serão mortos pelos filhos, plantas e animais não vingarão, a guerra civil será inevitável. Atena a convence (chega até a ameaçá-la com o raio de Zeus) a ser adorada nas casas e nas procissões da cidade. Em casamentos e nascimentos ela será propiciada, para garantir a harmonia e a prosperidade; Último Episódio: Nenhum lar, nem a cidade, prosperarão sem adorá-la. Este foi o acordo entre as Eumênides (Benfeitoras), as anteriores Erínies, e Atena. Esta é a parte que caberá a elas no mundo de Atena. As Eumênides pedem que ventos cálidos corram aquela terra, aqueçam e façam crescer toda a vida; Êxodo: Zeus e Partes concedem às Eumênides domicílio na cidade. O cortejo apresenta-a a todos e leva-a para casa.
A cidade de Atena funciona num regime de fala, regido pela fala da deusa. Ela uma vez falou, esta fala tornou-se instituições e palavras doces das figuras públicas e religiosas, e os cidadãos vivem em harmonia. É assim que Orestes quer viver, em sua cidade. Ele quer que o palácio dos atridas funcione não mais com tramas e perseguições. Isso nubla a cidade inteira, pois traz insegurança quanto ao porvir. A história da Oresteia mostra o desocultamento das Erínies, deusas do âmbito do não ser, indesejáveis, aquelas das quais ninguém quer lembrar. Elas agem às escondidas, embora sempre presentes para as suas vítimas. Elas fazem os mortais viverem um jogo de caça e caçador sem fim, no qual ela é a caçadora absoluta. No tribunal de Atena, elas mostraram não saber proferir um discurso. Elas falam como botes de serpente: rápido, repetitivo e sem chance de escutar. O tribunaL foi um presente de Atena para a cidade, como uma forma de ordenar as falas. Orestes já havia demonstrado para a deusa a sua capacidade de falar ordenadamente, ou seja, sabendo o momento de falar e o de calar. O resultado do julgamento de Orestes mostrou que não a lei, mas o âmbito de atuação das Erínies é importante para a cidade. Atena a chama para viver sob a sua redoma, como Eumênides, deusas lembradas pelos mortais sempre que eles casam-se ou têm filhos, para garantir felicidade. As Eumênides, estabelecidas na esfera do ser, sobre a Terra, tratam de pedir aos ventos que soprem cálidos, propiciadores de tudo aquilo que precisa brotar.
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