Sobre os mitos gregos
As histórias que nos contaram, quem as criou? Há como alguém tê-las criado? Poesia, no seu sentido original, grego, é fazer. Mas isso não quer dizer que o poeta seja o criador dos poemas que fala. As histórias míticas dos gregos não eram criações de homens com uma grande habilidade para extrair algo de suas próprias experiências. Se os gregos eram extraordinários é porque para eles o mundo era extraordinário. O universo era divino. Os deuses não os visitavam esporadicamente. Os deuses eram o mais profundo e amplo ser das coisas. "Mito é a interpelação do Deus ao homem. Culto é o impulso suscitado no homem por essa interpelação e que o compele a criação de formas a testemunharem a sublime presença do Deus interpelante." (Torrano, p.61 e 62) Da mesma Terra em que foi gerado o homem, também o foram os deuses. Os destinos deles diferem entre si, e isso é um abismo a separá-los. Mas o viver do homem, cada coisa que ele faz, é acompanhado. Os deuses são a própria presença, são o todo de cada coisa e o próprio Todo. Atena é o momento decisivo, e o momento decisivo é o Todo. Afrodite é a sedução, e o Todo é formado pela união das coisas. Os deuses não esperam para vir nos festivais a eles dedicados. Os festivais, todas as ações neles, são interpelações do Ser ou dos deuses. O mito é a proclamação do Ser ou dos deuses, e o poeta o veicula. As palavras do mito são uma teofania, não uma comunicação ou transmissão de informações. São a própria verdade divina, revelação da origem do universo, incluindo, é claro, o homem. E revelação, alethes, des-esquecimento, é ser. O grego era enquanto mergulhado na música mítica. "O mito é o lugar em que homens e deuses se encontram." (Otto, p.175) Não foi o grego que criou seus mitos, mas a existência dos gregos é que tomou forma nos mitos.
Referencias
JAA Torrano - Mito e Imagens Míticas, "O mito de Dioniso"
Walter Otto - Teofania
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