Sob influência

Até o século VIII, a.C., a poesia épica grega produzia-se e circulava da boca ao ouvido, em simpósios e festividades religiosas. Em Homero, ocorre, algumas vezes, de um personagem perguntar ao outro "que palavra passou a barreira dos seus dentes?". Não é que as palavras existissem antes dos dentes. Não havia tal espaço privado nas sociedades em que tudo era visto e ouvido, e o comportamento de um era avaliado considerando que era o de todos (se não podia ser o de todos, era punido). Com a escrita da poesia épica um certo corte se opera entre os corpos, e começa uma certa telepatia entre o escritor e o leitor. O aedo absorvia seu público para os mitos. O escritor absorve seu leitor mas, aos poucos, o meio vai se enrijecendo. Os textos podem ser interpretados, mas progressivamente preocupa-se com a autenticidade. Cantar as histórias dos deuses e heróis, além de glorificá-los, os presentificava, era uma situação religiosa. Mas a narrativa era produzida enquanto se narrava (por exemplo, analogias surgiam na hora). O indivíduo moderno acredita encerrar em si mesmo o tesouro dos seus pensamentos. Ele não tem mais comunidade, e até para quem ele ama ele pode se considerar opaco, não "suficientemente transparente". Perdura, contudo, quando se está diante de um padre, ou de um psicólogo, ou quando se está distraído ou dormindo, a sensação de que se é por ele devassado, até disciplinado. O homem se isola, e o mundo e o seu corpo agora são digitais. O corpo digital disputa a atenção de outros corpos digitais, mas com eles não tem comunhão, não conta, não ouve histórias. Algo novo tem sempre que ser mostrado, mas é um aparecer oco. O eu perde os parâmetros que tinha quando ligava-se a um corpo que trabalhava junto aos outros corpos, pisando num chão e respirando o mesmo ar e som. Esse eu sofre uma influência telepática total, está à mercê dos outros, de tal modo que uma palavra que lhe dirijam torna-se um "gatilho" para qualquer comportamento, como se ele mesmo fosse um smartphone e o outro, o usuário. Referência Peter Sloterdijk - Esferas 1

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