Sobre Apolo, 1
O culto a Apolo teve início no Oriente próximo, com templos distribuídos pela Anatólia. Estima-se que ele tenha substituído um antigo deus chamado Mandras, protetor da cerca do gado, e um deus etrusco chamado Aplu. O Hino Homérico a Apolo conta que Leda, uma deusa da Lícia, onde o nome dela significa "mulher", estava grávida de Zeus. Hera, esposa do Pai dos Deuses e dos homens, enciumada, mandou a serpente Píton perseguir Leda e não deixá-la parir. Leda percorreu diversos países do oriente em busca de um lugar protegido da serpente, um lugar às escuras. Passando pela ilha de Ortigia, na Itália, Leto deu à luz Ártemis. Viajou mais e encontrou parada na ilha rochosa de Delos. Esta é uma pequena ilha localizada nas Cíclades, conjunto de ilhas gregas localizadas no mar Egeu. No Hino, aparece Leda tentando persuadir Delos, como se esta fosse uma pessoa, a dar-lhe acolhida naquela hora difícil. "Delos, acaso queres ser a sede de meu filho, Febo Apolo, e instituir-lhe um opulento templo?" (Hinos Homéricos, p.136). Leto argumenta que, de outra forma, nenhum homem honraria uma pequena e pedregosa ilha, ruim para plantar e criar animais. Delos expõe a preocupação de que, recebendo um deus destinado a ser um dos maiores, ele a considerará indigna dele e a difamará. Delos fez Leto jurar que Apolo estabeleceria ali o seu primeiro templo, e só depois disso ele seguiria viagem. Abraçada a uma palmeira, aos pés do Monte Cíntio, Leto pare Apolo. Imediatamente a ilha se enche de um delicioso odor ambrosial. Apolo foi delicadamente cuidado por deusas, e Temis deu-lhe ambrosia, alimento imortal. Logo Apolo se debate, livrando-se das vestes, e reclama para si o arco e a cítara, dizendo que será, para os homens, um revelador dos desígnios de Zeus. Desígnios nefandos, diga-se, que aos homens são ditos em linguagem poética, oblíqua. Delos tornou-se uma grande atração entre as Cíclades e encheu-se de riquezas. Anualmente, habitantes da Jônia iam a Delos para festividades em glória a Apolo. Os rapazes participavam de concursos de pugilato, canto e dança, e as moças cantavam a Leto e Artemis. Originado na ásia, Apolo coloca-se ao lado dos troianos contra os gregos. Contudo, no século VIII já existe o seu santuário em Delfos, localizado na Grécia Continental. A esta altura, o culto a ele já está bem espalhado no ocidente. Apolo passou por Pito pedregosa e andou até o Olimpo. O deus adentrou a casa de Zeus, fazendo com que os deuses se levantassem de excitação perante aquela postura altiva, aquela jovialidade e o seu toque na cítara. Zeus permanece sentado, assim como Leto, que só se levanta para pegar a cítara do filho e a pendurar num prego dourado. Os pais se regozijam pelo excelente filho. Naquela reunião, as Musas cantam as glórias dos imortais e as desgraças dos mortais. As Cárites, as Horas, Harmonia, Febe, Afrodite e Ártemis dançam, belas de se ver. Ares brinca! Apolo andou pela Grécia em busca de um lugar para construir um amável templo para si: "Aqui tenciono fazer meu belíssimo templo, para ser oráculo aos homens que sempre virão aqui, e me trarão perfeitas hecatombes, tanto os que habitam o fértil Peloponeso, quanto os que habitam a Europa, e as ilhas banhadas ao redor, para que consultem o oráculo. A eles todos, o desígnio infalível anunciarei, fornecendo oráculos no opulento templo." (Hinos Homéricos, p.154). Ali o deus presidiu a construção de um templo de pedra, próximo de um aprazível rio. Contudo, Píton aterrorizava a população local, eventualmente devorando animais e homens. Um dia, Hera encontrava-se irada com Zeus, por este ter dado Atena à luz, por conta própria. Quis ela também ter um filho só dela, sem o concurso com Zeus. Um filho diferente dos outros imortais. Batendo na terra, Hera pediu a Gaia e a Urano por um filho que fosse forte como Zeus. Ela esperou por um ano, quando finalmente teve Tifon, ser monstruoso, a quem deu a Píton para ser amamentado. Num dado momento, Zeus enfrentou e, com dificuldade, derrotou Tifon. Já Piton foi alvejado por Apolo e mantido preso sob uma pedra. Apolo disse que, enquanto os olhos da serpente estiverem fechados, o mal não voltará àquela terra. A pedra é considerada o umbigo do mundo e fica localizada no oráculo em Delfos. Neste oráculo, anualmente ocorriam os apellon, festivais iniciáticos para efebos. Um peã, hino de culto a Apolo, era cantado, e moças e rapazes dançavam. Os jovens akersekomas, não tosados, tinham seus cabelos cortados e oferecidos ao deus. Eles ingressavam, então, na sociedade dos homens. Febo quer dizer puro. Apolo mantém-se distante das atribulações humanas. No início do inverno, ele se retira de Delos e passa a estação na Lídia. Ou, de Delfos ele sai para um retiro nos Hiperbóreos. No início da primavera ele retorna, sendo recebido pelo canto dos rouxinóis e das cigarras. Os montes, as alturas agradam ao deus oracular, do conhecimento dos desígnios de Zeus, e que os comunica aos mortais através das palavras oblíquas das sacerdotisas. Após matar a serpente, Apolo precisou purificar-se. Sendo um deus oracular, Apolo está em condições de purificar os homens que tiveram algum contato com o lúgubre e por isso estão poluídos. Na Oresteia, Apolo conhece a maldição que pesa sobre o palácio dos Atridas, sabe que as Erínias sedentas de sangue lá habitam. Por isso o deus aconselha Orestes a matar a própria mãe, que matou o pai dele, marido dela e rei de Argos, glorioso em Tróia. Orestes mata Clitemnestra e é purificado por Apolo, e pelo deus é defendido no tribunal de Atena. Apolo purifica, cura da doença da poluição. Ele apura a responsabilidade de Orestes e o livra do peso da inflexível lei do sangue, das Erínies. Apolo, com seu arco, também é o deus da peste, da punição dos soberbos. No início da llíada ele dizima os argivos, porque Agamenon escorraçou um velho que lhe suplicara pela devolução da filha. O velho era sacerdote do deus flecheiro. As flechas de Apolo também trazem a morte suave aos bem-aventurados, velhos que morrem dormindo, com um sorriso nos lábios. A mesma coisa é feita por Ártemis, às velhas bem-aventuradas. Durante a Idade das Trevas, entre os séculos XII e VIII, estatuetas de bronze representando o deus semítico Resep chegaram à Grécia. Ele trazia arco e flecha em suas mãos. Por outro lado, em Delos havia uma enorme estátua de Apolo segurando as três Cárites na mão direita e na esquerda uma lira. Há uma proximidade entre o arco e a lira. Ambos possuem cordas feitas de tripas de animais, que são retesadas para o disparo de flechas e de música. Ao soltar o arco e ao tocar a lira um som próprio é produzido, psálloy, um canto do fio. A música, e a Fala das Musas, que a acompanha, e a flecha acertam o alvo. Apolo é a principal figura do espírito grego de ordem, beleza e juventude. No oráculo de Delfos, inscrições atribuídas aos Sete Sábios diziam "Nada em excesso" e "Conheça-te a ti mesmo", lembrando aos visitantes a distância insuperável entre mortais e imortais. Apolo guarda, em relação aos homens, a distância que o mantém lúcido, e a lucidez de Apolo e de Zeus orienta todos os aspectos da vida dos mortais, inspirando juízes, políticos e filósofos.
Referências
Hinos Homéricos
Walter Otto - Os Deuses da Grécia
Walter Burkert - Greek Religion
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