Uma promessa dourada
Sobre o escudo de Aquiles, feito por Hefesto no canto XVIII da Ilíada, Romilly escreve: "O escudo representa o mundo inteiro: o céu e o mar, o sol, a lua, as estrelas, uma cidade em paz, com um casamento, dançarinos, um processo a ser julgado, e também uma cidade em guerra, sitiada por dois exércitos, com mulheres e crianças na muralha, os homens marchando para o combate, e os deuses com eles, e depois o combate. Também lhe coloca um campo com homens a lavrar, uma propriedade onde se ceifa, uma vinha, rebanhos, um local de dança com dançarinos... Em resumo, põe nele toda uma representação da vida humana na sua variedade: este feito impossível situa-se na linha das mais elevadas técnicas humanas, mas, para além dele, no irreal. Nenhuma escavação nos dará alguma vez aquele escudo. Ainda melhor, antes de começar a sua obra, Homero mostra-nos Hefesto a acabar vinte tripés com rodas de ouro para que 'por si mesmas, possam entrar na assembleia dos deuses e, depois, regressar a casa - uma maravilha de se ver!'. O Grego diz que estes tripés são 'autômatos'." (Romilly, p.35 e 36) Assim como nenhuma escavação nos traz o escudo de Aquiles, a decifração de Homero, das suas inspirações e dos seus sentidos, jamais se concluem. A Ilíada e a Odisseia são obras divinas, tão mitológicas quanto as histórias que eles contam. Sua linguagem nunca foi falada por nenhum grego, pois tem elementos arcaicos já para o século VIII a.C, quando viveu o poeta, misturados aos da época dele; e possui características jônicas e eólicas, e contaminações, nas contribuições posteriores, do grego falado na Ática. A poesia épica é uma linguagem particular, voltada para a performance, e esta não se separa do encantamento, do fazer os ouvintes romperem suas realidades concretas e experimentarem um passado embelezado a ponto de ser irreal. As armas dos heróis são de bronze. Para Aquiles, Hefesto as fez de ouro, e de ouro também eram as paredes do palácio de Alcínoo. Agora, o coração do herói pode ser entortado como o ferro aquecido, quando é malhado. Os objetos dos heróis são de uma época em que se usava o bronze e o ouro, mas o modo de falar do poeta mostra que a época dele é a do ferro. Os nobres que formam a audiência vivem na época do ferro, e o esplendor ficou para trás. Os homens não são mais fortes como Aquiles e Odisseu. Mas, veja só, estes heróis, no tempo da história, já estavam distantes de homens ainda mais fortes, conforme lhes conta Nestor, cobrando-lhes força. Aquiles e Odisseu estavam eles mesmos distantes de um passado embelezado, um passado que eles mesmos não viram. Nestor viu os gloriosos aqueus do passado dos heróis homéricos, e conta as histórias deles. Homero conta para os nobres do século VIII a.C, as histórias do belo passado deles. Quem viu (ou ouviu das Musas) conta para quem não esteve lá, e precisa ouvir. O poema nos mostra não apenas o nosso passado, mas que temos um passado, que os homens têm um passado perdido e irreal, divinamente melhor. E quanto ao futuro? Hefesto fez autômatos para poupar a si mesmo o trabalho de servir aos deuses. Seres com razão e fala, construídos pelos deuses, farão a vida deles ainda mais fácil. O divino artesão do passado também é o do futuro. A poesia épica, a língua que ninguém falou, nos faz essa promessa dourada.
Referência
Jacqueline de Rommily - Homero
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