Sobre Atena
Apolo é um deus que atua de longe. Anualmente, na estação fria, ele se afasta dos seus oráculos em Delos e em Delfos, e volta com o calor, recebido pelo som de passarinhos. Numa cena ao fim da Ilíada, ele recusa-se a lutar com Posseidon por causa dos mortais. Esses seres de vida curta, miseráveis em suas doenças e dores, não valem o aborrecimento dos imortais. Tal distanciamento permite ao deus uma visão ampla e profunda, e por isso ele é deus de oráculos. Atena é uma deusa da proximidade. Ela é o melhor amigo dos varões, estando sempre presente nos momentos de ação viril. E ela é deusa da sabedoria, especificamente da ação prudente. Ao homem que luta, mais importante do que a força é a prudência. Zeus uniu-se a Métis, deusa da sagacidade, e ela engravidou. O Pai dos deuses e dos homens ouvira de Urano e de Gaia que um descendente seu o destronaria, o mesmo que Urano sofreu de Crono, e o mesmo que o próprio Zeus fez com Crono. Para evitar perder o poder, Zeus engole Métis, a absorve, tornando-se Metíeta. Chegada a hora de Atena nascer, Zeus chama Hefesto e o orienta a desferir-lhe uma machada na testa. Temeroso, o deus ferreiro assim o faz, e foge em seguida. Da abertura pula a deusa com elmo, armadura e lança. O Olimpo treme, os deuses ficam assombrados. Havia, no Oriente Próximo, o culto a uma deusa armada, Ishtar. Na cidade de Ugarit, havia o culto a Anat, outra armada. Na Síria, escavações encontraram uma pequena estátua em madeira, o Paládio, de uma deusa vestida em armas. Na Pequena Ilíada, diz-se que Tróia só cairia se o paládio lhe fosse roubado. Uma noite, Aquiles e Diomedes entraram furtivamente na cidade e chacinaram doze teucros. Antes de irem embora, atendendo a orientação de Atena, eles localizaram e roubaram a estátua, e Tróia teve o destino que sabemos. Durante a guerra, a deusa percorre as fileiras dos homens, em momentos de indecisão, de fraqueza, ou de desistência, chamando-os para o que é preciso fazer. Com seus olhos claros, ela infunde a clareza e o animo viril. Incita incrível força aos homens. Ela petrifica os inimigos ao erguer a égide, grande escudo de pele de cabra, bordas de serpente e com uma cabeça de Górgona no centro, dado a ela por Zeus. Quando, na Ilíada, os aqueus corriam em debandada para as naus, porque Agamenon resolveu testar seu espírito de luta, Atena apareceu para um atônito Odisseu, convocando-o a percorrer as hostes e dizer as palavras eficazes, características dele, a fim de deter o retorno dos homens. Na Odisseia, Odisseu não consegue dormir na véspera de pôr em prática o plano de chacinar os invasores do seu palácio. Atena aparece para o seu favorito, mortal semelhante a ela na sageza, e lhe diz que ele não poderá fazer nada naquele momento, e o melhor é dormir. No início dessa mesma história, Telêmaco, tendo passado a vida distante do pai, acredita que ele está morto, até duvida ser mesmo filho de Odisseu. Ele recebe a visita de Atena, na forma do conselheiro Mentor, e é incitado a sair da confusão e agir, viajar em busca de notícias do pai. Se Apolo é a sabedoria ampla, Atena é a sabedoria das circunstâncias. Ela faz o encontro entre a absoluta sagacidade e virilidade e os momentos particulares, tirando os homens dos devaneios e dos ensimesmamentos. Atena é guerreira, se delicia com fragor da guerra, mas não de forma desvairada, como Ares, e sim com prudência. Ela precisava mesmo ser uma mulher, pois a capacidade masculina de fazer a coisa certa, na hora certa, é admirada pelas mulheres e inspirada apenas por elas. Os homens, se deixados sozinho, perdem-se. A mulher incita o homem para a clareza, a virilidade e o empurra para a vitória. No Parthenon, templo da deusa virgem construído na Acrópole, em Atenas, há uma grande estátua em mármore da Athena Parthenos, obra do escultor Fídias. Ela tem elmo e armas de ouro, e na mão direita, estendida, está Nike, deusa alada da vitória. Atena não conheceu o útero materno. Ela mantém-se virgem, Palas. No templo reúnem-se moças virgens para aprender, com Atena Ergane, a trabalhar o tear e o fuso. Elas tecem o peplo, grande robe purpúreo, que nas Panateneias, festival em honra à deusa, é entregue a ela. Essas moças são assim inseridas na vida da cidade, no corpo social religioso. Na frente do templo há uma oliveira, dádiva da deusa, símbolo de esperança para a cidade da qual ela é guardiã. Dos frutos dessa árvore é extraído o azeite que é dado para o vencedor dos festivais. Outras cidades, como Larissa, Argos, Esparta e Lindos, também têm a deusa por guardiã. Atena também é propiciadora do trabalho de artesãos, construtores e oleiros. Diz-se que ela ensinou Belerofonte a domar um cavalo. Ela construiu uma biga e fabricou arreios. Ela também ensinou a construção de barcos, arte dominada por ela, e ensinou a Jasão a navegação. A harmonia da vida das cidades protegidas por ela faz-se, portanto, com o encaminhamento das donzelas, dos trabalhadores e dos guerreiros. A lucidez de Atena está nas palavras bem empregadas na agora, nas instituições e nas leis, e nos discursos dos legisladores e magistrados. As esferas divergentes harmonizam-se, e a cidade corresponde ao Cosmos de Zeus.
Referencias
Hinos Homéricos
Walter Otto - Os Deuses da Grécia
Teofania
Walter Burkert - Greek Religion
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