Sobre Ártemis
O homem atual não desvincula o mundo de si mesmo. O mundo virou imagem de mundo, como disse Heidegger. É mundo subjetivado, mundo que existe pelo homem e para o homem. Os deuses gregos, naquilo que têm de maravilhosos e misteriosos, solícitos quando querem, ou terríveis, negavam o homem. Ártemis é a deusa da floresta virgem. O grego olhava para os limites da cidade, para os lados daquilo que ele não mexeu. Entrar na floresta era uma ousadia, a deusa se manifestava no inquietante fervilhar da vida. No Oriente Próximo, em Éfeso, a Ártemis touros eram sacrificados. Sua estátua era perfeitamente ereta, e mostrava uma formação de abelhas nas laterais da sua cabeça, e um tronco repleto de peitos ou de testículos de boi. A deusa era a nutridora dos animais, aquela que garantiria a renovação da vida. Eurípedes, na peça Ifigênia em Táuris, conta como Ártemis foi transportada da Ásia para a Grécia: Agamenon reuniu em Argos exércitos de toda a Grécia para a invasão à Tróia. Fortes ventos contrários impediam a saída das naus. Um adivinho disse que Ártemis estava desgostosa com Agamenon, e exigia como sacrifício o seu fruto mais belo. O rei enviou sua filha Ifigênia para Táurida, local da Ásia habitado pelos Tauros, um povo nômade. A jovem foi posta diante do altar da deusa, mas no momento final, ela foi trocada por um cervo, que morreu em seu lugar. A deusa queria punir Agamenon por ele ter matado um cervo que se abrigava em uma caverna sagrada. Ifigênia tornou-se então a primeira sacerdotisa de Ártemis, e presidiu aos sacrifícios de estrangeiros que por ali naufragavam. Anos se passaram até que Agamenon voltou vitorioso para casa, mas logo foi morto pela esposa e o amante dela. Orestes matou ambos e fugiu para a Táurida, onde encontrou a irmã que ele considerava morta. O jovem voltou para a Grécia, trazendo consigo Ifigênia e a imagem de Ártemis. Em alguns lugares da Grécia, Ártemis era cultuada como uma deusa sedenta de sangue humano ou de grandes animais: Esparta dizia ter a posse da estátua que veio da Ásia, estátua que demandava sangue humano de jovens. Mais difundidos eram os cultos ligados à fecundidade, que envolviam sacrifícios de grandes animais. A imagem corrente de Ártemis era a da donzela alta, magra, empunhando um arco de ouro, com uma aljava cheia de flechas de ouro presa às costas, acompanhada de um cervo. Responsáveis por essa imagem foram os poemas de Homero. Na Ilíada, Ártemis apareceu como uma jovem despreparada para situações belicosas. Num dos últimos cantos do poema, a mútua rivalidade entre os deuses, devida à defesa de um dos lados da guerra dos mortais, culminou na briga entre eles. Poseidon desafiou Apolo, que se recusou a lutar por causa de seres de vida breve e miserável. Ártemis zombou de seu irmão, ao que Hera a segurou de forma humilhante, pegando em ambos os seus pulsos usando apenas uma mão. Com a outra mão, a madrasta tirou a aljava que a jovem trazia nas costas, fazendo as flechas caírem no chão, e golpeou a orelha da pobre. Ártemis correu para o pai, Zeus, chorando. Mais próxima da imagem de Ártemis que tornou-se comum é a da Odisseia. Quando Odisseu chegou na terra dos Feácios, acordou com os gritos e risos de belas moças. Levantou-se, espiou e reparou na mais alta, uma deusa entre mortais. Odisseu a comparou a Ártemis, a deusa que vivia nos prados e nas florestas acompanhada das Ninfas e das Cárites. Elas dançavam e cantavam em lugares intocados pelo homem. Ártemis se destacava pela altura e pelo rigor em defesa da sua virgindade. Uma história dizia de um caçador que um dia a viu banhando-se. Ela jogou água em seus olhos, cegando-o e transformando-o num cervo. O caçador impudente foi devorado pelos próprios cães. O caçador precisava ser puro para receber dela o dom do uso do arco. Havia lugares e situações em que os leões, ursos e cervos não podiam ser caçados, como quando estavam parindo ou quando eram filhotes. Ártemis os protegia, nessas situações, e se o caçador os respeitava, recebia o dom do arco. Em agradecimento a uma boa caçada, ele pendurava numa árvore ou num pilar os chifres ou a pele da caça. Durante a noite, a própria deusa era a caçadora. Ela percorria a floresta negra, gritando e segurando tochas. Isso fazia a sua alegria. Um estrangeiro que ela encontrava perdido no mato, era guiado por ela para o povoado mais próximo. O homem andava até lá e podia ser integrado, quiçá fundar uma nova cidade. A própria deusa não pisava na cidade. Ela habitava a floresta e cuidava da passagem do ambiente selvagem para o civilizado. Outro limiar guardado por Ártemis era o do início e do fim da vida: assim como leoas e ursas eram assistidas por elas, mulheres que a invocavam, durante o parto, eram ou não eram alvejadas por suas flechas, ou seja, sofriam ou não sofriam terríveis dores. Ártemis também fazia vingar ou não o bebê. Mulheres enfermas a invocavam, e se eram curadas, ofereciam a ela belos e caros tecidos. Se essas mulheres morriam, o último pedido delas era a morte suave e imperceptível, e isso a seta de Ártemis também dava. A passagem da menina para a condição de mulher, que é a de esposa e mãe, também era guardada por Ártemis: "Entre os gregos, temos evidência incontestável que em Bráuron, cerca de vinte milhas (+- 32 km) de Atenas, ainda no século V a.C., ocorriam muitas danças de urso em homenagem a Ártemis. Elas eram praticadas por meninas de 5 a 10 anos, vestindo roupas amarelas felpudas sugerindo pele de urso. Segundo contam, as moças das famílias atenienses que participavam dessas danças eram realmente apelidadas de 'ursas', tal como Ártemis, chamada tanto de 'A Moça' quanto de 'Ursa'". (Lawler, p. 95) Apolo, irmão gêmeo de Ártemis, era de uma pureza espiritual. Ele mantinha-se distante das preocupações dos homens, como um observador imperturbável e de visão ampla e clara. Isso permitia que ele fosse um orientador para quem o buscava. Já a pureza de Ártemis era corporal, à medida em que ela preservava algo que, apesar de estar fisicamente próximo, não era corriqueiro, não era totalmente acessível para o homem. O primeiro passo no civilizado, e o primeiro e o último momento da vida dos mortais, eram ajudados por ela. E eram (talvez privilégios dos mortais) passos que ela, que era a própria vida fervilhante e alegre, não podia dar.
Referencias
Commelin - Mitologia grega e romana
Lillian Lawler - A dança na Grécia Antiga
Hinos Homéricos
Walter Burkert - Greek Religion
Walter Otto - Os deuses da Grécia
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