Sobre Ares
Na antiguidade, a nordeste da Grécia, próxima à Ásia Menor, estava a Trácia. Os gregos consideravam seu povo bárbaro, condizente com o deus lá originado, Ares. Ares é a personificação da violência desmedida na guerra. Esse deus refere-se a ao adjetivo "areios", belicoso, usado na Ilíada para designar tanto deuses ("Zeus Areios", "Atena Areia") quanto heróis tomados pelo furor bélico (deles se dizia que eram ou rebentos do deus ou a ele semelhantes). Nesse poema, Ares sempre perde para Atena, a deusa da guerra estratégica. Numa passagem, o grego Diomedes tem a deusa ao lado enquanto avança sobre os troianos e os derruba às dezenas. Do outro lado está o deus do urro de guerra, aquele que se regozija com a carnificina. Atena guia a lança de Diomedes até o ventre de Ares, fazendo espirrar seu icor e pondo-o em fuga. Ares, então, busca Zeus e se queixa de Atena e do desrespeito dos mortais. O pai dos deuses e dos homens diz que, entre os olímpicos, ele é de longe o mais odioso. A areté do herói homérico liga-se à coragem e ao desempenho na guerra, mas guerra também é rompimento de famílias, destruição de cidades e matança de homens no auge da sua força. Ares, considerado isoladamente, representa apenas desgraça. Mas ele deve ser tomado no conjunto formado pelos deuses, enquanto multiplicidade dos aspectos da vida dos homens. Ares faz par com Atena, aspectos da guerra. Afrodite, por exemplo, que é a deusa da irresistível e doce sedução, casou-se com Hefesto, o deus do trabalho e do esforço físico extenuante. Estes são pares de forças opostas, porém não excludentes nas nossas vidas. E Afrodite traiu Hefesto. Com quem? Só podia ser com Ares! Os filhos de ambos mostram o sentido dessa união: Phobos/medo e Deimos/terror, que se parecem com o pai e atuam dirigindo o carro que ele usa em seus ataques; Eros, que se parece com a mãe; e Harmonia, que melhor mostra a convivência dos dois pais. Sobre a Harmonia, o mito de fundação de Tebas diz que um homem chamado Cadmo, fenício, estava na cidade e precisava de água. No local havia apenas uma fonte, a chamada Fonte de Ares, e ela era guardada por um dragão, filho do mesmo deus. Cadmo corajosamente matou o dragão. Não satisfeito, ele retirou os dentes do monstro e os semeou na terra. Homens areios brotaram, e eles começaram a lutar entre si. Ares, para punir Cadmo, tomou-o como escravo. Essa escravidão durou oito anos, quando, com uma intervenção de Zeus, Cadmo casou-se com Harmonia. Os cidadãos de Tebas a contragosto se diziam descendentes de Ares. Na Grécia havia pouquíssimos lugares em que ele era cultuado. Cidades que se preparavam para entrar em guerra, invocavam-no. Esparta adorava Eniálio, "arrasador de cidades", deus encontrado já em inscrições micênicas, mas que em Homero tornou-se mais um adjetivo para Ares: Ares Eniálio. Havia, entre outros povos antigos, deuses e deusas eniálios e eniós, como a suméria Innana e a semítica Astarte. Além daqueles que teve com Afrodite, Ares teve mais uma porção de filhos, todos violentos porém derrotados pela inteligência dos seus opositores: por exemplo, Kyknos era um grande matador de homens, e chegou a construir um templo com caveiras. Héracles o enfrentou e matou. Em outra ocasião, Héracles também havia enfrentado e matado as Amazonas, filhas de Ares; na Élida, o rei Enômao matava em uma corrida todo aquele que pretendia à mão de Hipodâmia, sua filha. Pélops combinou com o cocheiro do rei uma sabotagem, e venceu a corrida. Pélops foi pai de Atreu e Tiestes, o primeiro dando origem aos amaldiçoados atridas. Essas histórias de punição da belicosidade são posteriores a Homero. A partir do século VII, na Grécia, as cidades vão começar a se juntar, formando as futuras póleis. A arte da política substituirá a da guerra, e divindades da desmedida, como Ares e Dioniso, perderão valor. A ordem será entendida não tanto como harmonia de opostos, mas como governo da razão.
Referências
Hinos Homéricos
Walter Burkert - Greek Religion
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