Sobre Apolo, 2

Em "As Leis", de Platão, há uma conversa entre um ateniense, um cretense, e um lacedemônio. Eles conversam sobre as leis das suas cidades, e de como elas educam seus jovens. O ateniense defende que a educação é o treinamento do indivíduo, desde que ele é criança, dos bens que o levarão a governar com justiça a si mesmo e à cidade, e a requerer que a cidade seja assim governada. Os bens podem ser divididos em humanos e divinos, os primeiros dependendo dos segundos. Os bens humanos são a saúde, a beleza, o vigor atlético e a riqueza, desde que ela venha acompanhada de sabedoria, esta já sendo o primeiro dos bens divinos. Em seguida, os deuses conferem moderação racional na alma, coragem e, por fim, justiça. Como se desenvolvem esses bens? As crianças experimentam sentimentos de prazer e dor, e a educação atua sobre elas de modo a não se tornarem viciosas, ou seja, excedendo-se na busca por aquilo que dá prazer ou no sentimento de medo. As primeiras virtudes serão a base para o despertar da razão na alma, harmonizando-se com ela. A primeira educação é, portanto, uma disciplina corporal dos prazeres e dos sofrimentos. Chegada a juventude, os indivíduos tornam-se inquietos, pulam, gritam e tocam-se, como se não pudessem se conter. O ateniense diz que Apolo, Dioniso e as Musas, compadecidos dessa situação dos mortais enquanto jovens, prontificam-se a serem nossos companheiros nas reuniões de música e comida. Da lira de Apolo ressoa a música que impõe a ordem sobre as cidades, dando origem às leis, e também sobre os corpos. A música apolínea e o canto das Musas colocam um ritmo para os sentimentos dos homens e permite que eles se harmonizem com a razão espiritual. "O cantar do mais lúcido dos deuses não se eleva como o sonho de uma alma extasiada, antes voa em linha reta para seu alvo claramente apercebido - a verdade - e o acerto é o sinal de sua divindade. O caótico tem de assumir uma forma, o agitado tem de submeter-se à regularidade do compasso, o dissonante unir-se em harmonia. Assim, essa música é a grande educadora, o símbolo de toda a ordem existente no mundo e na vida humana." (Otto, Teofania. p.149). Uma sociedade sem essa educação, sem que a razão esteja em harmonia com os sentimentos, é propensa ao caos, ao sofrimento. Referencias Platão - As Leis Walter Otto - Teofania

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