Pólis: como viver junto?

A pólis não era uma organização institucional grega, mas um modo de vida. Uma pessoa ficava diante de outra ou de uma multidão, todas conhecidas de todas, e discutiam o que precisava ser feito para viabilizar o viver junto. A pólis era a experiência concreta e imediata do outro e da terra em que se pisava, e essa experiência perpassava todos os aspectos da vida. As nossas cidades e os nossos Estados não se parecem com as pólis gregas, pois neles há um distanciamento entre o indivíduo e a coisa pública. Com Péricles, Atenas passou a dar mais chances para os pobres participarem dos júris, do arcontado e das plateias dos teatros. Na própria Atenas, e em outras póleis, os mais ricos deviam custear a construção de barcos de guerra, festividades religiosas, e ensaio e encenação de peças. E eles o faziam com orgulho, não com o incômodo que hoje temos ao pagar impostos. Em Ésquilo, a pólis é o meio de realização do Cosmos: na Oresteia, o palácio dos atridas é habitado pelas Erínies, deusas vingadoras do sangue familiar derramado. Elas são insaciáveis, sempre empurram os atridas a matarem-se uns aos outros, por uma culpa que nunca se expia. A rainha mata o rei, ameaçando Argos a entrar de vez em anomia. Por isso, o filho deles comete o terrível ato de matar a mãe. Ele é perseguido pelas Erínies, e é julgado num tribunal em Atenas. O tribunal é o Areópago, que fica nos pés da Acrópole. É presidido por Atena, e na defesa de Orestes está Apolo. Após muita discussão entre as partes, a votação dá empate, e Atena absolve o rapaz. As Erínies sentem-se desrespeitadas, pois elas têm um âmbito de atuação que é válido, embora sua lei seja cruenta e desorganizadora. Atena consegue um acordo com elas, atribuindo-lhes a função de zelar pelos nascimentos e casamentos em Atenas. As Erínies tornam-se as Eumênides, as Benfazejas. A pólis é o posicionamento justo das potestades e dos homens. Falta-nos algo da experiência da pólis. Nossas cidades são bem maiores do que as póleis, mas não precisamos estar tão distantes do olhar dos outros e de saber o que se passa no lugar em que vivemos. Na situação de calamidade em que se encontra o Rio Grande do Sul, ela mesma provocada pela ação humana que desconsidera o impacto das suas ações sobre o Todo em que vive, o governador pede para que se parem as doações (de gente que tenta olhar para gente), pois elas estariam atrapalhando o comércio local. Mas que comércio pode haver quando não há ruas nem estradas para circularem vendedores, compradores e fornecedores? Quando o dinheiro que se tem é nada perto de tudo o que precisa ser reconstruído na própria casa e na dos vizinhos? Como ter comércio, que não seja de atenção e carinho por quem está tão ferido? Será que não é hora de nos inspirarmos na pólis para nos reaproximarmos das nossas vidas concretas e eminentemente públicas? Referência H.D.F. Kitto - The Greeks

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