O kléos de Heitor

Príamo, rei de Tróia, teve muitos filhos. No final da Ilíada somos surpreendidos com a existência de mais um. Mas o preferido é Heitor. Durante os nove anos que os aqueus cercaram Tróia, a cada dia Heitor era o primeiro a ultrapassar as Portas Esqueias, fazendo-se acompanhar pelo seu exército, e era o último a voltar para a proteção. Quando os aqueus estiveram encurralados, Heitor determinou que os troianos acampassem não muito distante, marcando posição. No canto VI, Heitor faz uma breve visita à sua casa. Sua mãe teme que esteja se aproximando o fim da vida dele. Ela pede para que ele se acomode e beba vinho, o que o filho recusa. Depois desse encontro, Helena vê Heitor e elogia o seu senso de responsabilidade, tão diferente ele é de Páris, que só pensa nos prazeres da vida. Por fim, Heitor não encontra sua esposa e filho em casa. Voltando para perto das portas da cidade, ele os vê. Andrômaca suplica pela sua permanência junto deles. Quando tudo ruir, quem a protegerá? Por que ele não pode deixar os melhores homens bem posicionados no muro, fazendo uma boa defesa? Por que precisa ser ele o maior defensor da cidade? Heitor é o melhor guerreiro de uma cidade que está cercada, em guerra. A função dele é ser o melhor protetor. Qualquer falha nisso, qualquer fraquejar, é vergonhoso. Heitor, enquanto mortal, é a contraparte de seu irmão, Páris: este, cometeu um crime de xênia, levando consigo a esposa do rei Espartano a quem visitava. Isto provocou a invasão aqueia, um desagravo buscado pelos aqueus e também por Zeus Xênio. E Páris não se envolve por conta própria na defesa da sua cidade, sempre sendo preciso que Helena tente provocar sua vergonha ou que Heitor o ameace. Enquanto candidato a obter a glória imorredoura, ser cantado pelos poetas vindouros, o contraponto de Heitor é Aquiles, pois a glória que este busca é a de obter um grande feito no ataque a Troia. Heitor e Aquiles, à medida que se encaminham para o que devem fazer para obterem cada um a sua glória, vão se isolando daqueles que eram seus companheiros. Boa parte da Ilíada Aquiles passa rompido com os aqueus e, quando volta, não quer participar do banquete restaurador das forças. Heitor não atende às súplicas da sua família, não pode acalentar o choro do seu filho, e volta para a sua posição. Na verdade, o retorno de Aquiles é pelo desejo de vingança contra Heitor, que matou seu melhor amigo. Aquiles desvairá, matará todos os troianos que encontrar pela frente, enfrentará até dois rios divinos. Matará Heitor e, como um animal, ameaçará devorar sua carne crua. Arrastará o corpo do inimigo, esperando destroçá-lo. A humanidade de Aquiles só será restaurada, e sua glória encontrada, quando Príamo vier até ele pedir o corpo do filho. Mas até o último segundo de vida de Aquiles será dolorido, porque o amigo não está mais ao seu lado. Já Heitor, quando sabe que se aproxima o seu derradeiro encontro com Aquiles, é interrogado pelo próprio thymos sobre o que fazer: voltar para detrás dos muros da cidade, ficando à frente de sua família (como sua esposa lhe pediu)? Oferecer a Aquiles a devolução de Helena e a entrega de metade da riqueza de Tróia (uma desonra a que Aquiles responderá matando-o)? Heitor conversa consigo mesmo enquanto corre em torno da cidade, perseguido por Aquiles. Heitor para ao perceber um dos seus irmãos próximo de si. Vê que não enfrentará Aquiles sozinho. Heitor vira-se e enfrenta Aquiles, que atira primeiro a sua lança e erra. Atena devolve-a a ele. Heitor faz o segundo ataque, mas sua lança ricocheteia no escudo do outro. Heitor pede ao irmão uma outra lança, mas o irmão não está lá. Heitor percebe o logro de um deus, que se fez passar pelo irmão para fazê-lo lutar. "Ai de mim! Deuses me convocam para a morte. Acreditava ter comigo o herói Deífobo, mas ele está na pólis. Palas me enganou. A morte atroz me acossa, não mais dista, nem a evito, pois não é de agora que a desejam Zeus e seu filho arqueiro, outrora protetores, benévolos a mim. Me alcança a moira agora. Morra, mas não sem luta ou sem valor, cumprindo algo de vulto, relembrado no futuro!" (Homero, Ilíada. canto XXII, versos 296 a 305). Os deuses sempre lhe valeram. Não é agora que ele, Heitor, se queixará deles. A moira lhe chega, e lhe pergunta o que ele fará. "Após retardos numerosos, despido de falsas esperanças e autoilusões, sem medo da desonra ou da desgraça do fracasso, Heitor aceita a morte. A integral consciência da mortalidade é também o momento da consciência do kléos, único modo de transcender a morte. Ele emerge de sombrias nuvens - das sombrias nuvens da indecisão e da vacilação, da confusão à clareza e ao status heroico." (Jenny Clay, 2002, citada por Ragusa, 2024, pag 263). Heitor está enfrentando Aquiles. Provavelmente morrerá. Aquiles é a quase a própria imagem da morte. Mas não há segundos pensamentos em Heitor. Só há a consciência do que ele está fazendo. E se há esta consciência, há a consciência da glória. Heitor morreu com glória, e soube disso. Referências Homero - Ilíada. tradução Trajano Vieira. Giuliana Ragusa - A Ilíada de Homero: Guia de Leitura.

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