O isolamento de Aquiles
De sua tenda, Aquiles vê Macáon sendo carregado pelos amigos. Sua reação é dizer que agora os aqueus virão se ajoelhar perante ele, suplicando por sua ajuda. Mas Aquiles já não recebeu as súplicas dos aqueus, pouco tempo antes, e as rejeitou? O herói está perdido em seu próprio poder, e quer a humilhação dos amigos. Ele manda Pátroclo à tenda de Nestor, para se informar. O piedoso homem é recebido por Nestor, e vê Macáon ferido. Nestor diz a Pátroclo que Aquiles está começando a ter o que quer: o ferimento dos melhores aqueus e a destruição das naus. Pátroclo se compadece, mostrando a amizade que falta em Aquiles. Nestor lembra a ele que, quando se preparavam para ir à guerra, Peleu disse ao filho, Aquiles, que ele deveria ser o primeiro guerreiro. E Menécio disse ao filho, Pátroclo, que Aquiles era mais forte do que ele, mas ele era capaz de palavras benfazejas e deveria acompanhar Aquiles. A Ilíada é um poema de uma sociedade tribal. Na Grécia da Idade do Bronze, as populações nas cidades organizavam-se em tribos, que incluíam fratrias, que incluíam clãs, que incluíam famílias. As famílias nobres seguiam a linhagem do pai. O poema, em si, é uma palavra que fala das linhagens dos nobres para essas linhagens. São palavras de pai para filho. Palavras ordenadoras de Zeus para os deuses e os homens (neste mesmo canto XI, quando é chegada a hora de os troianos terem grande vantagem sobre os aqueus, cumprindo os desígnios de Zeus, Homero se refere a ele como "Pai dos Deuses e dos Homens"). As palavras de Menécio para Pátroclo o orientam à relação horizontal com outro homem. Os homens inserem-se no círculo da palavra paterna, e essa palavra precisa ser relembrada. O ancião Nestor a relembra para Pátroclo, informando a ele que Aquiles está esquecido das palavras do próprio pai e das palavras que ele ouviu Menécio dizer para Pátroclo. Ao virar as costas para a amizade dos aqueus, Aquiles expõe seu amigo Pátroclo ao perigo, pois, à visão do sofrimento, Pátroclo é piedoso e se move para fazer algo. Esse movimento o leva à tenda de Nestor, e agora Nestor lhe diz para ou convencer Aquiles a voltar à luta ou ele mesmo vestir as armas do temível herói e lutar, fazendo-se passar pelo outro. Pátroclo nem perde tempo considerando a primeira ideia, pois a segunda imediatamente o anima, como uma palavra divina que ele tenha ouvido, fazendo-o correr para a tenda de Aquiles para propor isso. Enquanto os aqueus não aparecem para se humilhar, a ideia de Pátroclo fazer-se passar por Aquiles (na prática sendo o próprio Aquiles, intimidando e matando a rodo os troianos) agrada a este. Mas, como diz Malta: "é a piedade do melhor amigo que fará Aquiles pagar por sua impiedade: Pátroclo, o herói benevolente, mostrando-se justo onde Aquiles foi injusto, prepara sua própria morte e a punição do Pelida, e assim o justo morre para que o injusto expie." (p. 216) Desde que foi desonrado por Agamenon e se retirou da luta, Aquiles ficou remoendo a cólera e desejando a punição dos aqueus. Seu pai havia lhe dito para ser o primeiro guerreiro, não o guerreiro único. Nas palavras de Nestor a Pátroclo, Aquiles pretendia vencer sozinho os troianos, sem ninguém ao lado: "De seu valor, Aquiles gozará sozinho. Terá muito a chorar, com toda tropa morta." (Ilíada, canto XI. versos 763 a 765). Pátroclo não teve chance de ser seu amigo, de aconselhá-lo, e agora Aquiles o expõe ao risco. Esquecendo as palavras do pai, perde-se a possibilidade da amizade com os aqueus e com Pátroclo.
Referência
André Malta - A Selvagem Perdição
Homero - Ilíada
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