O Indo-Europeu
Elementos em comum a certas línguas européias e asiáticas, mais notadamente entre o Grego e o Védico, indicam a existência de uma proto-língua. O Indo-Europeu teria migrado, na segunda metade do terceiro milênio a.C., das montanhas Altai, na Mongólia. para a Itália, a Grécia, a Anatólia e a Índia. As línguas particulares desses lugares ter-se-iam desenvolvido a partir disso, tornando praticamente irreconhecível sua raiz comum. Os primeiros indícios da língua Grega nos chegaram de inscrições em Linear B, em tabuinhas, datadas do século XIV. A partir de comparações entre as línguas a que o Indo-Europeu deu gênese, foi possível reconstruir algo do seu vocabulário e aspectos do mundo social e religioso dos seus falantes. A época das migrações sugere um povo semi-nômade, portanto não desenvolvido na agricultura, e sim no pastoreio; há evidências de culto a deuses, com orações e sacrifícios, e de poesias religiosas; dentre os deuses, há o Pai do Céu, o mais alto e poderoso, detentor do raio (Zeus pater, grego, e Juppiter, romano); o devah, em Sânscrito, e o deus, em Latim, têm raiz comum e nomeam deuses de luz; do panteão Grego, apenas Hera, Poseidon e Ares possuem raízes Indo-Europeias. Em compensação, a Eos-Aurora, deusa da manhã, e Helios, deus do sol, também são Indo-Europeus, apesar de que, na Grécia, eles não tenham o destaque que têm os Olimpicos. Havia uma poesia Indo-Europeia, da qual alguns elementos se verificam na poesia Grega e na Védica: a fórmula "glória imorredoura" (kleós aphthiton), referindo-se aos heróis; a consideração dos deuses como "doadores de bens"; a negação da morte (ambrotos, ambrosia); a libação (choai), que no Irã estava no nome do padre sacrifical, mas que na Grécia foi usado para referir-se a qualquer libação profana; a palavra "hecatombe", no Indo-Europeu, significava "sacrifício de cem bois", mas na Grécia referia-se ao ato de se trazer cem bois. Historiadores da religião grega antiga entenderam, a partir por exemplo da Teogonia de Hesíodo, que a religião Indo-Européia entrou em conflito com a religião indígena da Grécia. O Pai do Céu teria sido posto em oposição aos deuses da terra, como se observa no conflito entre Zeus e os Titãs. Burkert, contudo, entende que tanto a concepção de gênese, quanto a de conflitos entre deuses, vêm do Oriente Próximo, especificamente a Anatólia e os povos semitas. A pré-história da religião grega é uma rede de relações, na qual as influências se acomodam. O reinado de Zeus, se bem entendido a partir de Hesíodo, permite ver isso: Zeus não é um autocrata, mas alguém cujo poder realiza e emana da própria ordem cósmica, na qual cada divindade encontrou sua justa posição.
Walter Burkert - Greek Religion (Indo-European)
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