O engano entre os homens
O mundo de Homero é um Todo conhecido e ordenado por Zeus. O céu é dele mesmo, os oceanos são de Poseidon e o mundo dos mortos é de Hades. A Terra é a sede de todo o ser. Nos confins do Oceano, a Terra faz fronteira com o abismo, que é a queda para o não ser. Os desígnios de Zeus chegam aos homens através de sinais, que devem ser interpretados. Esses sinais informam tudo o que há de se cumprir. Na Ilíada, entre os cantos 12 e 15, os troianos vencem as muralhas dos aqueus e aproximam-se de suas naus. Heitor avança, acreditando que um sinal de Zeus, avistado por ele, lhe é favorável. Em certo momento, uma águia cruza acima dos homens, vinda pela esquerda. Ela segura uma enorme serpente. A presa dá um bote na ave, que a solta, deixando-a cair no meio dos homens assombrados. Polidamante diz a Heitor que eles mesmos são como a águia: ela pensava estar levando um farto alimento para os próprios filhos, mas foi atacada e voltará sem nada. Ainda dá para eles voltarem à cidadela troica e planejarem melhor o ataque. Heitor discorda do adivinho, pois sabe que, mesmo que tenham muitas baixas, darão um decisivo golpe nos aqueus, e então conseguirão proteger a cidade e suas famílias. Quem está certo, Heitor ou Polidamante? Prosseguir ou retroceder? André Malta observa que Zeus, luminoso e iluminador, também é obscuro e enganador. Ele dá sinais do que acontecerá, mas também faz os homens acreditarem no que não acontecerá. No canto 1 da Iliada, enganou a maior autoridade aqueia, Agamenon. Agora, como pretende que Aquiles seja glorificado pelos aqueus, estes devem sofrer duros revezes e chegar ao limite. Que limite é esse? Os troianos não podem vencer a guerra, mas precisam chegar perto o bastante disso para que Aquiles ressurja na luta. Heitor acredita poder vencer os aqueus, mas o seu avanço fará com que o melhor amigo de Aquiles, Pátroclo, levante-se contra os troianos e os afaste. É destino de Pátroclo morrer pela mão de Heitor, ajudado por Apolo. Aquiles então se reerguerá não por causa de súplicas e reconhecimento dos amigos, mas pelo desespero. Heitor logo será morto por ele. Os homens, e também os deuses, deconhecem os desígnios de Zeus. Os herois são iluminados e enganados por ele. A Ate, a Perdição, e outros filhos da Noite, atuam sobre os homens, enganando-os e desgraçando-os, e isso cumpre o destino deles, que é garantido por Zeus. O próprio Zeus também pode ser enganado, mas seu engano reforça sua iluminação. Procurando, de alguma forma, ajudar os aqueus, Hera se arruma como há muito não fazia. Vai até Afrodite para dela receber um cinto que terá um efeito de encantamento sobre seu marido. Vai até o limite do Oceano, para pedir ao Sono que atue sobre Zeus. Em troca, o Sono pede a mão de uma das Graças, filhas de Hera e Zeus. O plano é realizado, e Zeus acaba dormindo após dividir a cama com Hera. A deusa não perde tempo e trata de falar a Poseidon que agora é dado que ele atue junto aos aqueus. O Abala-Terra vai a esses exércitos e profere palavras animadoras aos dois Ájax. Eles transmitem essas palavras aos outros e, com nova força, fazem os troianos recuarem. Heitor chega a ser gravemente ferido por Ájax Telamônio, com uma grande pedra que este lhe atira. Zeus acorda e manda Poseidon retirar-se do meio dos homens. Agora Heitor recebe palavras animadoras e tem sua força recuperada. Ao despertar, Zeus obteve um controle ainda maior dos acontimentos. O engano de Zeus não destrói a ele ou aos seus planos, antes reafirma seu poder e percepção ampla. Na Grécia minoica e micênica, a fala divina chegava aos reis, e eles governavam de modo com que a terra estivesse conforme o Todo. A partir do século VII, no entanto, as funções políticas, jurídicas, religiosas e militares, nas cidades, vão sendo distribuidas por diferentes homens, pertencentes à nobreza. As cidades-Estado vão se compondo, com diferentes formas políticas e leis. Em Atenas, reformadores vão livrando os pobres do excessivo peso do poder econômico e politico dos ricos, aproximando-os da Assembleia e dos juris. Platão viveu na Atenas do século IV. A cidade se considerava democrática, as leis eram debatidas e votadas pelos cidadãos sem a determinação do nivel de renda. Os sofistas viajavam pelas cidades ensinando retórica, para quem pretendia bem desempenhar no convencimento dos outros. Em 399, Socrates é condenado, em Atenas, por impiedade e corrupção dos jovens. Seu discípulo, Platão, considerava-o o mais justo dos homens. Algo estava errado com a cidade democrática. Ela produzia graves injustiças. Platão vai constatar uma diferença entre a linguagem e o mundo. No século VI, Parmênides dissera "o que é, é, e o que não é, não é", declarando ter ouvido isso das Musas. Sobre o não ser não há como falar. Em O Sofista, Platão apresenta um diálogo no qual o homem que trabalha como sofista é acusado de ensinar coisas erradas aos seus alunos. O sofista invoca Parmênides para se defender, dizendo ser impossível que ele professe o errado, pois do não ser é impossível falar. O erro seria uma ilusão. Mas Platão apontaria, sim, a possibilidade do erro, para afirmar a necessidade de se escapar dele. Quando estou diante de uma mesa, e sobre ela há um vaso, e eu digo "isto é um copo", estou errando. "Isto é um copo" não fala do não ser do vaso enquanto nada, mas enquanto diferente do vaso. Dizemos não ser, negamos o ser, mas não dizemos o nada, e sim o diferente daquilo que é, que é um outro ser. A palavra divina é infalível. Ela precisa é ser interpretada. Já nas poleis, os homens estão cada vez mais entregues à linguagem e, portanto, à possibilidade do erro.
Referências
André Malta - A Selvagem Perdição
Homero - Iliada
Paulo Ghiraldelli Jr. - Semiocapitalismo
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