O Ciclope, de Eurípides. Dioniso, para Atenas

No canto IX, da Odisseia, Homero conta que Odisseu e seus companheiros aportaram na ilha dos Ciclopes. O local e os habitantes eram desconhecidos, talvez fossem hospitaleiros. Odisseu tem fome, e também quer conhecer os habitantes. Ele percebe uma grande caverna, dentro da qual há muito queijo e bacias de leite. Os homens comem, até que escutam a aproximação do morador. Por precaução, se escondem no fundo da caverna. Um rebanho de ovelhas adentra o lugar, seguido pelo gigante que o pastoreia. Ele fecha a caverna usando uma enorme pedra. É um Ciclope, e ele senta-se e se põe a ordenhar. Para, bebe do soro de leite, que está próximo, e percebe os visitantes. Odisseu, confiante no seu poder de persuasão, sai do escuro e se põe a falar. A autoconfiança não o despe totalmente da sua astúcia e, apresentando-se, afirma chamar-se Ninguém. Ao gigante ele diz ter enfrentado dura viagem, e ter necessidade da hospitalidade que é dom de Zeus Xênios. O Ciclope ri, pois não conhece obediência a qualquer Deus, portanto, não reconhece qualquer costume humano. Ele cata dois daqueles homens, bate-os contra uma pedra e os come. Odisseu se apavora. Esta cena, escrita provavelmente no século VIII a.C., foi retomada por Eurípides, provavelmente em 412 a.C., na produção de um drama satírico entitulado "O Ciclope". O drama satírico, na Grécia Antiga, foi um gênero teatral que retomou o espírito dionisíaco no festival em homenagem a este mesmo Deus. Em Atenas, no século V, ocorriam anualmente as Grandes Dionísias, festival comemorativo da chegada do culto de Dioniso a Atenas. Dizia a história que, quando Eleutéria e Atenas fizeram uma aliança, uma estátua de Dioniso foi oferecida aos atenienses. Estes recusaram. Sabemos, pela mitologia grega, que não se recusa um Deus. Dioniso puniu os atenienses com uma praga, que os afetou em sua genitália. Desesperados, eles resolveram aceitar a vinda da estátua e o culto ao Deus. Anualmente passou-se a fazer a faloforia, procissão na qual uma estátua de Dioniso era carregada por cidadãos e metecos, de Atenas, e delegados de outras cidades. Símbolos fálicos de madeira e de bronze também eram carregados. A estátua era trazida para a frente do templo do Deus, onde se realizava sacrifícios, e então levada ao teatro, localizado na encosta sul da Acrópole. Após a procissão, iniciava a festa religiosa, e nela faziam competições de ditirambos (hinos a Dioniso, cantados e dançados por coros de homens e meninos) e de teatro. As peças teatrais, inicialmente, eram a tragédia e a comédia, encenados em dias diferentes. As tragédias eram apresentadas em três dias, em cada dia um tragediógrafo apresentava uma trinca de peças. O quarto dia era dedicado à comédia. Com o passar do tempo, sentiu-se necessidade de que uma peça burlesca, ao espírito dionisíaco, fosse apresentada como encerramento dos dias das tragédias. O drama satírico era escrito pelo próprio tragediógrafo do dia, e o seu objetivo era aliviar a tensão do público. Os escritores de teatro eram chamados de didaskaloi, o que significava escrever a peça, ensaiar os atores (incluindo o coro), montar o palco e arrumar as fantasias. Assim como as tragédias, o drama satírico retomava histórias e personagens da poesia épica, de muitos século atrás, e os fazia dialogar com a pólis. Tragédias, comédias e dramas satíricos eram apresentados num mesmo palco, possivelmente pelos mesmos atores mas, entre uma peça e outra, mudavam elementos cênicos e fantasias. Uma diferença fundamental entre a tragédia e o drama satírico é que a primeira retoma histórias que têm um final trágico: um exemplo é a trilogia Oresteia, de Ésquilo, que trata do retorno do rei de Argos, Agamênon, após sua vitória em Tróia. Na Odisseia, ficamos sabendo que, ao chegar em casa, Agamênon foi morto pela esposa, em conluio com o primo do rei. O filho de Agamênon retorna de um exílio e, ao saber do ocorrido, busca vingança. O drama satírico, por sua vez, aproveita acontecimentos que tiveram um bom desfecho, e neles insere um elemento de sátira aos personagens e às situações. Através de desenhos em vasos e de relatos, hoje temos notícia de que muitas peças satíricas foram encenadas nas Grandes Dionísias. Entretanto, a única que restou completa foi O Ciclope. O palco desta peça, provavelmente, era montado com um pano ou uma estrutura de madeira ao fundo, trazendo a pintura de uma caverna. À esquerda, outra pintura retratava o mar e, à direita, um campo de pastagem ou um rochedo. O coro ficava de frente para o centro do palco, bem na frente do público. Em O Ciclope, o coro era formado por homens fantasiados de sátiros. A fantasia consistia de uma máscara com orelhas pontudas, grande testa e cabelos e barba longos e pretos. Um rabo de cavalo era afixado atrás do ator, e um pênis, que ora podia ficar flácido, ora podia ficar ereto, era preso na frente. Na mitologia, os sátiros são filhos de Dioniso e seguidores das suas procissões e rituais. O corpo do sátiro é metade homem, a metade de cima, e metade cavalo. São alegres dançarinos, de forte apetite por vinho e sexo, e considerados preguiçosos. Nesta peça, também há o Sileno, o pai dos sátiros e aquele que cuidou do próprio Dioniso quando este era um bebê perseguido por Hera. Sileno, assim como seus filhos, é calvo, mas tem cabelos e barbas brancas, um rosto enrugado, e também rabo e pênis de cavalo. Completam o elenco da peça, Odisseu e seus homens e, é claro, o Ciclope Polifemo. Em 415 a.C, durante a Guerra do Peloponeso, que opôs Atenas e Esparta, Atenas vinha de uma derrota em Maratona. Alcibíades convenceu a assembleia ateniense de organizar uma expedição à Sicília, especificamente Siracusa, a fim de atacar de surpresa o local onde reunia-se uma grande e ameaçadora frota. Este ataque levou milhares de atenienses à morte, e parte importante das trirremes à destruição. Até o fim da guerra, iniciada em 431 e encerrada em 404, Atenas jamais se recuperou. Um detalhe que nos importa destacar, deste fato, é que centenas de atenienses foram mantidos prisioneiros na Sicília. Eurípides dialoga com isso, em O Ciclope. Nessa peça, a desventura dos gregos ao encontrarem o incivilizado Polifemo é revertida pelo reencontro entre os sátiros e o vinho. Essas criaturas viviam escravizadas e tristes, de pênis mole, naquela terra sem uvas e sem dança. Odisseu e seus homens chegam do mar oferecendo tudo que têm, até o odre mágico que produz tanto vinho quando se beba, por comida. Bebe Sileno, e ele fica com a cabeça inchada. Bebem os sátiros, e eles esquecem do trabalho e se põem a dançar o sikinis. É um reencontro com Dioniso, com quem a servidão é por amizade. Polifemo, nesta peça, ainda se pensa mais poderoso do que Zeus ("se ele troveja, eu fico na caverna, enchendo a barriga"), mas é mais requintado do que na Odisseia: ele prepara com gastronomia os dois gregos que apanha dentro da caverna. Mas também ele bebe, e canta (fora do tom), e quer festejar com seus irmãos. Odisseu, quando ali chegou, parece ter aprendido a astúcia com os sátiros: primeiro perguntou se aquela era a terra de um rei ou de governo de homens (como a Atenas do século V), depois se apresentou com o próprio nome e origem. Foi preciso que os sátiros lhe ensinassem a responder "Ninguém" quando alguém lhe perguntasse isso, naquela terra que não o receberia como ele queria. Após ver a ferocidade do gigante, Odisseu apresenta um plano para cegar Polifemo, e os sátiros adoram. Quando Dioniso entra em Polifemo, uma dominação que para ele será uma punição, o monstro deita-se, diz coisas sem sentido e vê em Sileno o seu próprio Ganimedes. Ele dorme, e Odisseu e seus homens, com uma ajuda mágica dos sátiros (que eles juram que deram), cozinham o olho único de Polifemo. Quem acabou de chegar e já quer fugir, foge, acompanhado dos sátiros, que dizem ser os novos marinheiros de Odisseu, mas escravos de Dioniso. Esta peça retoma aos personagens e cenas homéricas não os apresentando da mesma forma, mas com modificações que se relacionam com contexto político e cultural da apresentação. Eurípides exibe o culto a Dioniso, ressaltando a capacidade desse deus em reverter situações difíceis, para quem o louva, e a necessidade de se reconhecer o seu poder e a ele prestar tributos (quem o despreza, tem com ele um encontro violento); paradoxalmente, a peça aponta para a nascente dúvida em relação aos deuses, presente nas falas tanto dos sofistas quanto dos filósofos (em um trecho, Odisseu, ao reconhecer o perigo que corre, pede ajuda a Zeus Xênios, mas afirma que, caso o Deus não o ajude, ele deve ser considerado um deus inútil). A peça é uma experiência do espírito do deus do riso, do canto e da dança, numa cidade que sofria com a guerra, num país que se encaminhava alquebrado para o fim do século V. Referências Eurípides - Teatro Completo 1. Tradução Jaa Torrano Carl A. Shaw - Euripides: Cyclops, a Satyr Play

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