O Aquiles que se vê e o Aquiles que não se vê mais

Os personagens e o público da Ilíada esperam o poema quase inteiro para verem Aquiles lutar. Ora os aqueus parecem estar em vantagem sobre os troianos, oram parecem estar em desvantagem. Ora a ajuda de um deus lhes revigora os membros, ora faz isso com os troianos. A guerra é um terrível fardo: o homem afasta-se dos seus, viaja para longe e por muitos anos vive diante da morte. Quando Aquiles irá retornar? Corre entre os homens, gregos ou troianos, o nome de Aquiles, mas sem que haja uma história sobre ele. Há uma impressão difusa de que ele é o maior guerreiro de todos. Após o rompimento dele com Agamenon, Aquiles é citado na reprovação que alguém faz ao rei. Quando, porém, uma embaixada é enviada à tenda do herói para comunicar as súplicas do rei e entregar as ricas ofertas dele, e Aquiles reafirma sua mágoa, a impressão acerca dele passa a ser a de alguém que virou as costas para os amigos. Aquiles vive com seu amigo, Pátroclo, e algumas escravas, fechado em sua tenda, no acampamento dos mirmidões. Ele passa o tempo tocando a lira e cantando sobre a glória dos heróis, como se esse assunto não fosse mais o dele, ou como se ser herói não fosse mais grande coisa. Aquiles é um bloco que ou luta, ou não luta, ou está diante dos outros, ou está guardado, e que possui uma história de nascimento, de criação por Fênix, de importantes vitórias e conquistas, mas que não tem uma história de herói. Pátroclo é seu amigo, companheiro e ajudante. Ele está sempre ali para ouvir seus lamentos. É doce e muito prezado pelas escravas de Aquiles e pelos aqueus. Em certa hora, os troianos conseguem transpor a muralha que protege os aqueus, e perigosamente se aproximam das naus deles. Heitor é o senhor do combate. Da tenda, Pátroclo vê Eurípilo sendo carregado, e percebe a situação desesperadora. Ele sai da tenda e vai à de Nestor, onde toma conhecimento de que os melhores aqueus estão feridos. Nestor diz que Aquiles quer a humilhação deles. Sugere que Pátroclo vista as armas de Aquiles e lute. Isso o anima, e ele volta. Aquiles ri das suas lágrimas de menina que suplica pelo colo da mãe. Ele chora pelo pai dele próprio, ou pelo pai de Aquiles? Chorar pelos aqueus, presunçosos, é risível. Aquiles recusou as súplicas dos amigos, naquela vez. O que ele passou a querer, deles? A humilhação? A morte? Zeus prometera à Tétis que faria com que a glória de Aquiles fosse restaurada. Pretendia fazer isso com o favorecimento momentâneo dos troianos. Mas, tendo Aquiles se perdido na cólera, Zeus dará a ele uma glória soturna: quem recusa súplicas, peca pela hybris; recusar súplicas de amigos, é ainda pior, tem como punição cavar a própria desgraça, sem perceber. O amigo será retirado dele. Pátroclo veste aquelas armas e pisa fora da tenda. É o próprio Aquiles que está ali: sua presença anima uns e terrifica outros. Aquiles havia orientado Pátroclo a apenas afastar os troianos, pois o enfrentamento perto da cidade era reservado ao herói maior. Mas Pátroclo, vestido de Aquiles, é tomado pela perdição deste, e se lança à matança desenfreada. Mata até Sarpedon, filho de Zeus. Apolo vem ao seu encontro, escondido numa fumaça, e aparece atrás dele. O deus toca suas costas, fazendo seus olhos cegarem-se e suas armas caírem. É um desvelamento: embora todos soubessem que ele não é Aquiles, agora isso é visto. Não é que ele não seja Aquiles porque dentro da armadura Aquiles não está. É que aquele Aquiles é desarmável. Aquiles não é desarmável. Ele é aquele que se vê lutando. Pátroclo usou as armas do herói, mas é passível de ser desarmado. O desarmado é o menino ou o velho que saiu da tenda e está, indevidamente, no meio da batalha. Enquanto estavam na tenda, Pátroclo disse a Aquiles que ele não tem pai ou mãe, pois é uma pedra. Se Aquiles pensa que a morte do próprio pai mexeria com ele, ele está enganado, pois ele é imoldável. Logo Pátroclo vai morrer, e Aquiles sairá da tenda. Matará a torto e a direito, finalmente será Aquiles. Será ao vir para a luz, para os olhares. Mas esse frenesi será uma reação automática à perda do amigo. Era algo que só esperava um gatilho, para acontecer. O que moldará Aquiles, o transformará em algo diferente de um herói sangrento, será o encontro com Príamo, no fim da história. Referências Andre Malta - A Selvagem Perdição Homero - Ilíada

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A ameaça persa. Creso se prepara

Creso é capturado!

Interminável canção de Aquiles