Mito e linguagem

"O ar que se perderia adquire uma sobrevida momentânea." Mas e se a situação fosse tal que o ar não se perdesse? O sopro dos mortais vai ao Hades, quando eles morrem. Enquanto se é vivo, sopro e corpo não se separam (o grego não considerava psique e soma antes da morte do homem). As tribos se faziam imantadas pelo poeta, que, por sua vez, era imantado pelas Musas. O sopro das Musas não cessava de circular,sobre a Terra. O poeta era uma caixa de ressonância das Musas, o propagador do seu som, falando-o, aos outros homens, a partir de certa língua. O poeta inspirado, e feito poeta, pelas Musas, com elas habitava um espaço íntimo exclusivo deles. Ele, porém, é um mortal e tem um papel social. Outros homens aparecem com seus ouvidos, esperando que ele diga na língua deles o que ele ouviu das Musas como sopro. Essa é uma intromissão na díade poeta-Musas. O homem da época do bronze à arcaica educava-se pela música de Homero. As comunidades se formavam da boca para o ouvido, da boca dos cantores para os ouvidos do seu público. Os imortais cavalos, as douradas armas dos heróis, os olhos glaucos de Atena eram experienciados como presentes, no precioso instante da escuta. A escrita levou à separação dos homens entre si e em relação ao Todo. O pensamento não era mais mítico, por imagens, mas abstrato, conceitual. O que antes era proximidade agora é cultura, ou seja, as histórias são transmitidas como passado do qual se foi cortado, e que agora é simbólico. Entretanto, rituais particulares e grandes festas religiosas recompunham a psicoesfera, espaços em que os homens se viam contidos, penetrados e animados, novamente próximos. Deuses e homens compartilhavam suas existências sobre a Terra. Os deuses tudo veem e tudo sabem. Os heróis, quando sábios, muito escutaram e alguma coisa puderam ver. Aquiles era filho da deusa Tétis e de Peleu, um mortal. No canto 1 da Ilíada, após retirar-se do front aqueu, ele se encerra em sua tenda. Aquiles chora devido à cólera provocada por Agamemnon. Tétis vem e lhe pergunta o ocorrido. Aquiles diz que é desnecessário dizer algo a quem tudo sabe. O filho deve contar, diz Tétis, para que os dois saibam. A mãe-deusa criou o filho e sabe tudo do espírito dele. Aquiles sabe que terá a vida curta. Ele deve sair do regaço materno e obter glória guerreira. Enfrenta as batalhas, mas Agamemnon o faz retrair-se (a redoma maior, sustentada por Zeus, jamais é perdida). Aquiles se retira para a sua intimidade refeita, com Pátroclo, o amigo que é o seu próprio caminho para a glória (Pátroclo, "glória dos homens antigos, que eram heróis", é amado por Aquiles como este ama a glória). Vir ao mundo, ter uma mãe, pisar fora desse regaço e buscar o que tem valor, e ser limitado por um Destino, que é onde se tem o reconhecimento da glória: isso acalentava as audiências. "A fascinação é a regra entre os homens, o desencantamento é a exceção" (p.189 e 190) O poeta tem algo em comum com o explorador da vulva, da qual Sloterdijk fala: o explorador de vulvas precisa ser um cientista-poeta, ou seja, ser o descritor de algo não objetivo, e que o captura. Um pé permanece à porta, permitindo que o rosto volte para trás e fale uma língua, e o outro pé pisa descalço numa poça que não se vê. Na gruta nada se vê ou se pega, não se é sujeito. Aquilo que veio a ser o homem ali coabitou com a placenta, um prolongamento seu e que o continha. Essa estrutura esférica é uma subjetividade de dois pólos. O parceiro essencial do homem foi a sua placenta, mas enquanto o primeiro ganhou um colo, o segundo foi jogado fora. O cordão umbilical é cortado, interrompendo a última ligação uterina, e os pulmões enchem-se de ar, abrindo espaço para a comunicação oral. A mãe pega no colo, e fala com o bebê e, para ele, uma nova esfera será formada, agora com a voz da mãe e um certo outro, herdado do seu período intra uterino. O poeta está na porta da vulva, escolhido que foi, pelas Musas, para receber o hálito que o aquece e faz vibrar junto de quem o envia. Ele é o privilegiado transmissor da Fala das Musas, do mito, e, por uma força encantatória, congrega as pessoas. O homem moderno não sabe de onde veio. Ele olha só para o próprio umbigo, mas o próprio umbigo não lhe diz nada. Signo de um corte que permitiu a linguagem, que é tratado sem música, sem memória. A ligação sanguínea com a mãe foi perdida, e o ar entrou nos pulmões. O homem pôde falar, pôde ser homem. Ele não investiga como pode falar, mas confia no próprio ato de falar. "Conversando a gente se entende, e tudo se acerta": assim se expressa o filho de uma mãe suficientemente boa. Referência Peter Sloterdijk - Esferas 1

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