Íon, de Eurípides
Eurípides nasceu em Salamina, em 480 a.C., filho de Mnesárquides, um comerciante, e de Clito, uma vendedora de hortaliças. O pai soube, de um oráculo, que Eurípides seria vitorioso nos concursos. Mnesárquides interpretou o oráculo como se o filho estivesse destinado a vencer competições esportivas, então exercitou e robusteceu o seu corpo. Realmente, Eurípides teve vitórias no pugilismo, obtidas nos concursos de Elêusis e nos Jogos Ístmicos, em Corinto. Aos poucos, contudo, voltou-se ao refinamento da alma, tornando-se ouvinte de Anaxágoras, de Pródico e de Sócrates. Passou a escrever tragédias, e em 456 participou pela primeira vez de uma competição teatral. Eurípides introduziu inovações dramáticas, e ao todo produziu 92 peças, das quais um número bem menor chegou a nós. Ganhou o primeiro prêmio cinco vezes. Gostava de passar tempo numa caverna em Salamina, onde pintava e escrevia. Era tomado como avesso ao burburinho público e, por isso, foi alvo da gozação de Aristófanes. Foi casado duas vezes e, segundo dizem, foi traído por uma das esposas. Alguns comentadores atribuem a ele misoginia, e enxergam em suas peças uma representação desfavorável das mulheres. Conta-se, até, que ocorreu de as mulheres de Atenas perseguirem-no para matá-lo. Contudo, em nenhum outro tragediógrafo os problemas e os sofrimentos das mulheres apareceram com tanta pungência. Personagens como Medeia, Alceste e Fedra são estudadas até hoje, como representações das questões das mulheres na sociedade. Quanto ao enredo das suas peças, o professor Fernando Brandão comenta que, diferente de, por exemplo, Sófocles, autor em cujas peças costuma ser possível localizar um personagem central (Édipo, Antígona, etc), em Eurípides ressaltam-se os conflitos entre os personagens: Em Íon, qual o personagem principal? Fica-se na dúvida entre o próprio Íon e Creúsa. O notável nessa peça é que a ascensão de Íon parece contrapor-se à estabilidade de Creúsa.
Hoje, Eurípides ganha a alcunha de Dramaturgo das Paixões, pelo enfoque no sofrimento de cada personagem que se insere nesses conflitos. Já nos prólogos das suas peças, apresenta-se a problemática em que se envolvem os personagens, inserindo o público no clima emocional deles. Eurípides também foi acusado de reduzir a importância dos deuses. Na Atenas do século V a.C, ganhava relevo o discurso sobre as questões da cidade e a retórica, e isso está presente em Eurípides. Mas, quando não é a intervenção providencial do deus no final das suas histórias, o próprio enredo é tecido e segue os desígnios de um deus, como se vê quanto a atuação de Apolo, também no Íon. Eurípides nasceu no mesmo ano em que Ésquilo obteve sua primeira vitória em um concurso teatral. Foi, também, o ano em que os gregos venceram os persas em Salamina. O início da carreira de Eurípides se deu em uma Atenas em pujança política, econômica e cultural. As peças do nosso autor trouxeram ao público as dores dos troianos e dos persas, decorrentes dos conflitos que esses povos tiveram com os gregos. No ano em que teve início a Guerra do Peloponeso, Eurípides encenou Medeia. Nos anos seguintes, vieram Hipólito, Hécuba e Orestes. No ano em que Alcibíades é destituído da função de comandante, em Atenas, Eurípides atendeu a um convite do rei Archelau, e mudou-se para a Macedônia. Em 406, ele foi morto pelos cães de caça do rei. O dramaturgo foi enterrado na Macedônia. Dois anos depois, a guerra chega ao fim, deixando a Grécia, principalmente Atenas, depauperada.
A peça Íon foi encenada em 413 a.C., ano da desastrosa expedição de Atenas a Sicília. Alcibíades, que, na Assembleia, propôs essa expedição, foi banido de Atenas, e bandeou-se para o lado espartano. Esta foi uma dura derrota para os atenienses, com perda de milhares de vidas. A história contada aqui é a do casal Creúsa e Xuto, membros da família real ateniense que, por não conseguirem deixar um descendente ao trono, recorrem ao Oráculo de Apolo, em Delfos. Em Delfos, Xuto aparta-se de Creúsa, para antes consultar o oráculo de Trofônio. Lá, ele fica sabendo que não irá embora sem encontrar um filho. O homem então vai consultar Apolo, e dele escuta que o primeiro rapaz que encontrar, saindo dali, é o seu filho. Na porta do templo, dá com o zelador do lugar e, exultante, afirma ser o pai dele. Xuto e Íon entendem-se e saem para um banquete, organizado por Xuto. Creúsa é informada de que o marido obteve o filho que desejava, mas a deixou sozinha na condição de sem filhos. O ancião que acompanha Creúsa a faz ver que Xuto há anos planejava levar esse filho bastardo para o palácio da família dela. O plano do traidor seria não só ter a paternidade, sem que ela tenha a maternidade, como expulsá-la do próprio palácio. O ancião a leva a planejar matar o rapaz, plano que o próprio ancião executará. No banquete de pai e filho, o velho tenta envenenar o rapaz, mas é descoberto e revela o mando da rainha. Creúsa se refugia no templo, lugar sagrado, e lá Íon a encontra. Antes, em seu primeiro encontro com Íon, Creúsa contou-lhe de uma amiga que foi seduzida por Apolo, engravidou e abandonou o filho. Nesse segundo encontro, o desejo de um é matar o outro. A Pítia vem à cena, trazendo o cesto que continha Íon quando este, ainda bebê, chegou ao templo. Creúsa reconhece Íon como o filho que ela abandonou, após ela ser seduzida por Apolo. Filho que está vivo, e que é o que ela buscava. Também Íon, com as provas que a mãe lhe dá, reconhece-a. No fim, Íon irá ao palácio como o filho que Xuto acredita ser dele, e como herdeiro, por parte de Creúsa, do trono de Erecteu.
Para H.D.F. Kitto, estamos diante de uma tragicomédia: "Em Íon, Eurípides não protesta gravemente nem se encontra perpetuamente incerto sobre se o que está a escrever é comédia ou tragédia. A verdadeira falsidade da história de Creúsa afasta-a do mundo da tragédia para o mundo do patético." (Kitto, pag 384) Creúsa tem o filho, o abandona e depois busca saber se ele está vivo; Íon foi abandonado pela mãe, criado no templo de Apolo e, depois de crescido, depara-se com um homem de estranho comportamento e que diz ser o pai dele; Xuto, um estrangeiro que deu a sorte de desposar a princesa de Atenas, busca um filho e ouve do oráculo que o tal filho o esperava na entrada. Xuto acredita no Deus, tanto que passou a buscar em suas lembranças as circunstâncias em que deve ter semeado Íon; Personagens enganados e perdidos em suas emoções. Prestes a matarem uns aos outros, mas que, com a ajuda de Atena ao plano de Apolo, constituem uma família real para Atenas, família com sangue Erecteu e com ligação divina, e destinada a fundar as raças Jônia, Aqueia e Dória.
A família de Creúsa é a dos Erecteus. Erictônio foi um dos primeiros reis de Atenas. O nascimento dele liga-se a Atena e Hefesto. Certa vez, Hefesto não se conteve e tentou agarrar Atena. Ele ejaculou, mas o líquido não tocou a deusa, indo todo para o chão. Da Terra nasceu Erictônio. Atena escondeu a criança num cesto, e o confiou às filhas de Cécrops com a ordem de que não espiassem. As moças desobedeceram, viram a criança que, para espanto delas, era guardada por duas serpentes. Atena as puniu, fazendo com que as desobedientes pulassem da Acrópole. Atena recolheu Erictônio ao seu templo e, anos depois, Cécrops passou o trono para ele. De acordo com a versão de Eurípides, Erictônio é pai de Erecteu, e este sucedeu-lhe no trono de Atenas. Em certa ocasião, Atenas entrou em conflito com Elêusis. Erecteu procurou o Oráculo de Delfos, para saber como poderia garantir a vitória contra os eleusinos. Ele deveria sacrificar uma de suas filhas, e assim fez. Os atenienses venceram. No entanto, no lado eleusino, lutou e morreu Eumolpo, filho de Poseidon. Irado, o Deus persuadiu Zeus em matar Erecteu com um raio. Creúsa, uma filha de Erecteu, casou-se com Xuto. Xuto veio da Tessália, tendo sido expulso pelos irmãos. Xuto ajudou Atenas numa guerra, e a mão de Creúsa lhe foi concedida pelo pai.
Na peça Íon, Creúsa, com a ajuda dos deuses, consegue dar continuidade à linhagem dos Erectidas e garantir para a cidade um futuro auspicioso. Karelisa Hartigan entende que a peça se trata de uma busca não apenas da personagem Creúsa, mas também de Xuto e do próprio Íon. Xuto e Creúsa combinam de ir ao Oráculo consultar o Deus sobre se a eles seria dado ter filhos. Creúsa, porém, tem mais interesse em saber o destino do filho a quem abandonou na caverna. Desde que Apolo a possuiu na caverna, localizada numa encosta da Acrópole, ela vive em sofrimento e dúvida. Íon foi criado no Oráculo de Delfos, crescendo feliz e bem cuidado pela Pítia. Ele jamais se pergunta sobre seus genitores. É orgulhoso do trabalho que faz, e tem adoração pelo Deus. Mas quando Creúsa lhe aparece e pergunta sobre o filho gerado por Apolo e abandonado por ela, uma história que ela conta como sendo de uma amiga, Íon passa a se interrogar sobre a natureza do Deus e a possibilidade dele em legislar sobre a vida dos mortais. E quando Xuto convence Íon de que é o seu pai, o jovem passa a se interrogar sobre quem é a sua mãe e sobre a sua própria identidade.
Vasileios Dimoglidis entende que, nesta peça, Íon, Creusa, Xuto e também Apolo são plot makers. O plot de Apolo coincide com o de Eurípides: ambos querem a continuidade da família real ateniense, introduzindo nela um filho que continue a linhagem Erectida e que, no futuro, frutifique em novos povos. Atrapalham este plano, ainda que involuntariamente, os outros personagens. No Prólogo, Hermes conta ordens recebidas de Apolo: "'Ó irmão, parte para a povoação autóctone da ínclita Atenas, sabes a urbe da Deusa, recolhe o recém-nascido da pedra côncava, com o cesto mesmo e as faixas que tem, transporta para o meu oráculo de Delfos e deposita-o na entrada de meu templo. Para que saibas, o filho é meu. Do mais, cuidamos nós.'" (Íon, versos 29 a 36) O quanto pôde, Apolo conduziu as sortes dos personagens: arranjou de Creúsa conseguir deixar seu filho na caverna, sem ser notada; levou a Pítia a aceitar o incômodo presente deixado na escada do templo; fez com que Creúsa e Xuto não conseguissem ter filhos e tivessem de ir ao Oráculo, onde encontrariam Íon (o intercurso entre Apolo e Creúsa, a depender do Deus, teria permanecido escondido; Pelo Deus, Xuto foi levado a acreditar ser pai de Íon); seguindo o plot de Apolo, Xuto sugere a Íon ir viver com ele em Atenas. Íon inicialmente recusa, mas Xuto apresenta o plano (que é o plano de Apolo) de apresentá-lo a Creúsa como visitante, e depois revelar a sua paternidade; o velho que acompanha Creúsa conta a ela um suposto plano de Xuto de introduzir um filho bastardo no palácio real, e apresenta três alternativas à sua senhora: destruir o Templo do deus que abusou dela, matar o traidor Xuto ou matar o usurpador Íon. A escolha de Creúsa é matar Íon. O velho tenta envenenar o rapaz mas, por intervenção de Apolo, o plano é descoberto e Íon vai atrás de Creúsa. Íon pretende matar Creúsa, mas a tragédia de filho matando mãe, assim como a de mãe matando filho, foi cancelada pelo Deus, pois este enviou a Pítia para apresentar o berço de Íon e, assim, viabilizar o reconhecimento mútuo de mãe e filho. Íon, a princípio, não acredita ser filho de Creúsa e Apolo (o que é compreensível, pois esta revelação veio logo após a descoberta da paternidade de Xuto, que fica desmentida), mas Atena intervém: "Aqui vim eu, epônimo de tua terra, Palas, expedida da parte de Apolo, que estimou não vir à vossa vista, não intervenha invectiva de antes, e envia-nos a dizer-vos as palavras de que ela te gerou do pai Apolo, e dá a quem doou, não aos teus pais, mas para te dar nobilíssima casa." (Íon, versos 1555 a 1562) Enfim convence o moço e, à mãe fala do que irá se cumprir: "Vai com o filho ao solo de Cécrops, Creúsa, e coloca-o o trono real, pois nascido da prole de Erecteu é justo que reine em minha terra, ínclito na Grécia. Os filhos dele serão quatro natos de única raiz os epônimos da terra e das tribos do chão residentes em meu mirante." (Íon, versos 1571 a 1578). Os próprios Íon e Creúsa terão filhos, Doro e Aqueu, iniciadores de linhagens importantes.
Michael Lloyd lembra que, na peça, Apolo e Atena garantem uma descendência divina para Atenas, contrariando alguns comentaristas que afirmam que há uma diminuição da importância das divindades. "Euripides uses a version of the story which is highly creditable to Athens, in which the paternity of Apollo is essential to the patriotic message." (Lloyd, page 2) Atena é protetora de Atenas desde a ocasião em que enfrentou a Górgona, passando a usar a pele dela como proteção. Gotas do sangue do monstro foram confiadas a Erictônio, e passadas às próximas gerações dele, até chegar a Creúsa. Erictônio brotou da terra, e sua linhagem tem por símbolo as serpentes. Creúsa bordou duas serpentes no pano com que envolveu Íon, na cesta em que o deixou aos cuidados do pai. A trama dessa peça baseia-se, de certa forma, numa oposição entre Olímpios e ctônios. Logo no início da história, o coro, parado às portas do Oráculo, se encanta com as representações de lutas entre antigos heróis e terríveis monstros (Hércules contra a hidra de Lerna, Belerofonte contra Quimera, Atena contra Encéfalo, Zeus contra Mimante e Baqueu contra um gigante ctônio). Mas, podemos observar ao final, que o que ocorreu foi uma cooperação entre Olímpios e Ctônios. Na trama enredada por Apolo ocorrem desvios que não diminuem a importância dos deuses, mas mostram o pendor das ações humanas para a tragédia e para a comédia. No entanto, conforme salienta Lloyd, esses desvios fazem com que o plano do Deus ocorra ainda melhor: Íon deveria ser introduzido em Atenas sem que ninguém além de Creúsa e do próprio Íon soubesse quem é o seu pai. Isso porque ele deveria gozar dos privilégios reais sem que Xuto e os demais atenienses se opusessem. Eles se oporiam, caso soubessem se tratar de um filho gerado por Creúsa antes do casamento. Do jeito que a coisa andou, Xuto terminou acreditando (por Apolo) ser pai de Íon, e também que Creúsa poderá aceitar de bom grado o enteado; Creúsa reencontrou seu filho, e entendeu os planos do Deus para o palácio real; e Íon foi a Atenas, abençoado pela Deusa homônima e por sua mãe.
Referências
Eurípides - Íon. Teatro Completo IV. tradução de Jaa Torrano. Ed 34
Karelisa Hartigan - Íon: a Quest. in Brill’s Companion to the Reception of Euripides. (https://www.academia.edu/16352104/Bri...)
Maria de Fátima Silva e Tereza Virgínia RIbeiro Barbosa - Eurípides, o Dramaturgo das Paixões. Ed Giostri
H.D.F. Kitto - A Tragédia Grega. Ed 70
Michael Lloyd - Divine and Human Action in Euripides’ Ion. Journal Antike und Abendland (volume 32, issue 1) (https://www.researchgate.net/publicat...)
The Penguin Dictionary of Classical Mythology - Pierre Grimal. Ed Penguin
Vasileios Dimoglidis - Plot-makers in Euripides’ Ion. Cuadernos de Filología Clásica
. Estudios griegos e Indoeuropeos. vol 32 (https://revistas.ucm.es/index.php/CFC...)
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