Aquiles amante
Amar quem te ama, fazer tudo por quem entregou-se a você: essa é a virtude mais valorizada pelos deuses. De acordo com Fedro, no Banquete, o arrojo de Aquiles, na guerra de Tróia, deve-se ao seu levante contra quem matou Pátroclo, não à cólera que ele nutria contra Agamemnon. Esta cólera, assim que Aquiles soube da morte do melhor amigo, foi imediatamente deixada para trás. Pátroclo era mais velho do que Aquiles, e havia sido designado pelo pai a acompanhar o melhor dos aqueus. No entanto, ele não conseguia propriamente ser um conselheiro: enquanto estavam na sua tenda, principalmente após Aquiles ter se retirado da guerra, Pátroclo foi um alter ego dele. Pátroclo ouvia Aquiles tocar a lira e cantar as glórias dos heróis, e remoer a cólera contra Agamemnon. Amigos vieram suplicar por ajuda, mas o herói, inflexível como uma pedra, virou as costas para os aqueus. Demonstrou cruel indiferença quanto ao sofrimento deles. Pátroclo era, por todos, considerado doce e ponderado. Houve um momento na guerra em que os troianos perigosamente se aproximaram das naus aqueias, ameaçando incendiá-las. Pátroclo assistiu a isso, da tenda. Ele também viu grandes homens aqueus sendo carregados, e foi à tenda de Nestor. Deste homem sábio ele ouviu justas críticas a Aquiles, que estava tomado pela cólera e esperava a humilhação total deles. Pátroclo se compadeceu ao ver todos aqueles homens feridos. Nestor sugeriu que ele pusesse as armas de Aquiles e fosse à luta, e foi o que ele fez. Pátroclo saiu do ambiente sonoro da tenda, da intimidade compartilhada com Aquiles. As coisas não estavam bem. Aquiles concordou em deixar o amigo apenas afastar os troianos. Ele jamais deveria aproximar-se da muralha da cidade, pois aquela glória era do outro. No entanto, assim que vestiu as armas de Aquiles, Pátroclo tornou-se uma espécie de Aquiles: aterrorizou os troianos, animou os aqueus, adquiriu força e, principalmente, ficou com uma obstinação cega. Matou a rodo, mas não soube parar. Foi parado e desnudado por Apolo, num movimento que o revelou como uma espécie de Aquiles, não o próprio. Aquiles é um bloco de pedra, ele é o que se vê, ele não se desnuda. Aqueus e troianos agora se entretinham em disputar quem levaria o cadáver de Pátroclo. As armas de Aquiles, o insensato do Heitor já a estava usando, sem perceber que, ao fazer isso, também estava tocando a sina de Aquiles. Aquiles sabia que morreria jovem, por isso buscava a glória imorredoura. Quando soube da morte do amigo, Aquiles enfim levantou-se. Ele juntou-se aos aqueus, mas lutaria como um amante desesperado. Os homens percebem as coisas tardiamente: apenas no fim de suas vidas eles sabem se tiveram eudaimonia, se tiveram glória ou se estiveram em desgraça. A justa cólera contra o rei, em Aquiles, foi substituída por perdição, quando este não atendeu às súplicas dos aqueus. Zeus atenderia o pedido de Tétis, e faria com que Aquiles tivesse glória, mas agora esta seria dolorosa. Nunca se sabe se Zeus cumprirá o que a ele se pede, nem como se cumprirá. Aquiles passou a lutar selvagemente: se a cólera de Aquiles foi a responsável por lançar muitas almas de aqueus ao Hades, o seu desespero amoroso faria isso com os troianos. Rapidamente matou Heitor, e sabia que morreria em seguida. Pátroclo era o seu amante, aquele que o buscava eroticamente. A guerra os separou, e Aquiles passou a buscar o amigo. Ao Hades ele desceria, para reencontrá-lo. "Os deuses, em admiração, experimentaram grande contentamento com isso e lhe renderam honras excepcionais, por haver ele atribuído tão elevada estima ao seu amante." (Platão, O Banquete, linhas 182 a 185)
Referências
André Malta - A Selvagem Perdição
Homero - Ilíada
Platão - O Banquete
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