A sabedoria de Creso
Escutar ou dar conselhos é algo que não se consegue mais fazer. Creso, rei da Lídia no século VI a.C., quando se viu diante da morte, tornou-se um bom conselheiro. Posto na pira de Ciro, Creso reconheceu que tudo o que fez e valorizou destruíram a ele e ao seu reino. Ele, então, entendeu as palavras que o ateniense Sólon havia lhe dito, acerca da felicidade do homem, e tornou-se ele mesmo capaz de dizer palavras divinas, palavras que um homem e todos os homens precisam ouvir. Após quatorze dias de cerco dos persas, Creso foi aprisionado. Ele havia governado a Lídia por quatorze anos. Ciro, o conquistador, pretendia oferecer aos deuses as primícias da sua tomada da Lídia: mandou construir uma grande pira e que, em seu topo, pusessem Creso e duas vezes sete jovens lídios. Um outro possível motivo para essa decisão de Ciro foi que ele pretendia saber se algum deus salvaria o rei lídio, pois dele se dizia que os deuses eram favoráveis. No alto da pira, Creso aquietou-se. Ele pensou nas palavras que Sólon havia lhe dito, quando visitou seu palácio. E as palavras agora lhe pareciam inspiradas por um deus. "A sorte dos homens muda. Apenas no fim da sua vida é que um homem sabe que foi feliz", foi algo assim que Sólon lhe disse. Creso, então, suspirou profundamente e gritou três vezes o nome de Sólon. Ciro mandou intérpretes perguntarem à vítima o que era aquilo que foi gritado, que nome era aquele. Creso, a princípio, ficou em silêncio, mas enfim disse tratar-se de um homem com o qual todos os tiranos precisavam conversar. Os intérpretes continuaram perturbando, querendo saber o que havia de especial no tal homem. Creso contou da visita de Sólon, quando o ateniense desdenhou das suas riquezas e lhe disse coisas destinadas a ele, Creso, mas destinadas a ele por serem destinadas à humanidade. As chamas rapidamente tomaram conta da pira. Após ouvir os intérpretes, Ciro percebeu que ali estava um homem cuja felicidade não havia sido menor do que a dele próprio. Se o outro agora queimava, amanhã poderia ser ele a queimar, pois a sorte dos homens é a coisa menos estável que existe. O rei mandou que rapidamente apagassem o fogo, mas não conseguiram. Creso, percebendo que mudaram de ideia quanto ao sacrifício, pediu a Apolo que o ajudasse em nome de todas as oferendas que ele lhe fez. O céu estava limpo e sem ventos. Repentinamente desabou uma violenta tempestade. Já diante de Creso, Ciro perguntou-lhe quem o aconselhou a atacar o território dele e a criar inimizade. "Quem fez isso fui eu, rei, para tua felicidade e para a minha infelicidade; mas a causa de tudo foi o deus dos helenos, que me induziu a vir atacar-te com meu exército. Ninguém é tão insensato a ponto de desejar mais a guerra do que a paz, pois na paz os filhos sepultam seus pais, mas na guerra os pais sepultam os filhos. Os deuses, todavia, quiseram que fosse assim." (Heródoto, Histórias. livro 1, parte 87. Tradução Mário Kury). Creso agora entendeu as palavras de Sólon: elas destinavam-se a todos os homens, principalmente àqueles que se consideravam felizes. Vendo isso, Ciro interessou-se por ele, queria escutar aquele homem. Ao responder a Ciro, Creso reconheceu a insensatez dos seus atos, mas atribuiu seus infortúnios aos deuses. Os persas saqueavam a cidade recém-conquistada. Creso perguntou a Ciro o que eles faziam, ao que este respondeu que eles saqueavam a cidade de Creso. Creso disse que o saque ocorria na cidade de Ciro. O rei persa pediu a opinião de Creso acerca daquilo. O homem persa, que é violento por natureza, poderá se tornar rebelde caso se apodere de muitas riquezas, Creso o disse, e aconselhou o rei a por guardas na porta, para impedir a saída das riquezas e para orientar os persas a oferecerem aquele butim a Zeus. Os homens não se sentirão prejudicados. Ciro mandou guardas fazerem isso, e em seguida disse a Creso que ele agia como um rei. Ciro ofereceu-lhe um favor, e Creso pediu para enviar seus grilhões como oferenda ao deus dos helenos. Creso explicou sua revolta contra os deuses pelas oferendas perdidas e os oráculos enganosos. Alguns lídios foram enviados a Delfos, para lá depositarem aqueles grilhões e para perguntarem ao deus se ele não se constrangia por ter assegurado a Creso a vitória sobre os persas. Os homens foram e ouviram da Pítia que o destino de Creso não está ao alcance do deus. Creso deveria pagar pelo pecado de Giges, seu antepassado que matou o rei ao qual servia e desposou a rainha. Este ato significou uma mistura indevida entre servo e rei. A Creso faltava compreender isso, assim como lhe faltou compreender quem era o mulo ao qual o oráculo se referiu quando disse que a queda de Creso ocorreria quando um mulo fosse rei dos medos e dos persas. Creso entendeu que era o animal, mas o mulo era Ciro, filho de uma princesa meda com um homem persa submetido a ela. As Moiras queriam que a punição dos lídios ocorresse ainda no reinado de Creso. Apolo conseguiu retardar por três anos a queda da Lídia e, quando isto aconteceu e Creso foi posto na pira, o deus salvou Creso. O lídio se queixava dos oráculos mas, ao invés de pedir esclarecimentos, assumiu que eles lhe eram favoráveis e precipitou-se contra os persas. Tudo isso os homens lídios ouviram da Pítia e transmitiram a Creso, que reconheceu que a falta era dele mesmo.
Referência
Heródoto - Histórias
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