A riqueza de Aquiles e de Odisseu
A Ilíada e a Odisseia são dois poemas longos. São uma coleção de diferentes situações, envolvendo ou os deuses, ou os homens ou ambos; há assembleias, refeições coletivas, afirmações de amizade, choros e risos entre familiares; há combates sangrentos, competições esportivas, apresentação de cantos glorificadores, e a hora em que o sono vem; os heróis são ombreados pelos companheiros, ou aparentemente estão sozinhos (o herói nunca está sozinho; um amigo, que pode ser um deus, sempre o acompanha). "(...) inicialmente neutra, a fortuna favorece primeiro um campo, depois o outro, ao mesmo tempo que a ação se desloca, ganha o campo aqueu e depois, novamente, a muralha troiana." (Romilly, página 42) A Ilíada e a Odisseia são, cada uma, uma unidade, o desenvolvimento do percurso de um herói. A história da cólera de Aquiles é a da guerra de Tróia. Homero conta o nono ano da guerra, mas na narrativa parece que ela acabou de começar, com o preocupante afastamento de Aquiles, da luta. Agamenon o desonrou, e então ficamos a maior parte do texto esperando que ele reapareça e decida a situação a favor dos aqueus. Aquiles só reaparecerá no canto 9, rejeitando as súplicas dos amigos e do rei, o que também nos desespera. Os aqueus serão destruídos, por causa do orgulho de Aquiles? Zeus está cuidando para que cada acontecimento, inclusive cada ação de Aquiles, realize o destino da guerra e deste herói. Esses dois destinos são imbricados. Zeus prometeu a Tétis, mãe de Aquiles, que o honraria. Mas ele não disse de que maneira, se a Aquiles seria dada a honra que ele deseja! Quase na metade da história, Aquiles não aceitou voltar a lutar e ajudar a afastar a destruição dos amigos. Como diz André Malta, sua cólera, aí, torna-se injusta, o encaminha para a perdição. Pátroclo, seu melhor amigo, seu amor, luta em seu lugar, e morre. Aquiles, agora, será movido pela dor, pela raiva, pelo remorso. Ao invés de lutar, mostrará selvageria, pois está sozinho. Matará Heitor, tentará profanar o seu corpo. Será desonrado pela honra de Zeus. Decidirá a guerra. Por fim, o pai de Heitor o visitará, pedindo o corpo do filho. Aquiles devolverá, e voltará a ter honra. A história da guerra de Tróia será a da selvageria e a da luta, da tragédia e do sucesso de Aquiles. Quanto à Odisseia, há um jogo de temporalidades que não prejudica a integridade da história, por ela se basear no retorno de Odisseu. Encontramos o herói apenas no canto V, quando os deuses decidem que é hora de liberá-lo do amor aprisionador de Calipso e deixá-lo seguir caminho. Odisseu seguirá da ilha da deusa, Ogígia, direto para a terra dos Feaces, não sem quase morrer no mar de Poseidon. Dos Feaces, Zeus determina que Odisseu vá em segurança para casa. Mas, antes, ele vai ouvir de Demódoco parte do que ele fez em Tróia, e cantará, ele mesmo, tudo por que passou no caminho entre Tróia e os braços de Calipso. Homero deixa o seu herói contar para os Feaces e para nós o que lhe aconteceu antes do ponto em que a Odisseia começa. Além do canto 5, o canto 1 também começa com os deuses decidindo o que fazer com os personagens. No seu percurso, Odisseu passou por cenários inumanos e criaturas monstruosas. Também foi desejado pela feiticeira Circe, pela ninfa Calipso e pela jovem mortal Nausicaa. Com uma delas passou muito tempo, com outra, o tempo de uma aventura, mas sempre pensando em Penélope, com quem se reencontrará no fim da história. Em Ítaca, Odisseu chegará disfarçado como mendigo, e assim poderá tomar pé da situação, ver os que ainda esperam seu retorno e os que se aproveitam do seu desaparecimento. Odisseu conta para Eumeu e para a própria esposa histórias falsas sobre si, sustentando uma identidade também falsa. A vingança contra os pretendentes de Penélope e o reencontro com ela são esperados com emoção e ansiedade e, quando acontecem, não têm como não trazerem alívio. Alívio pode ser uma boa palavra para dizer do que sentimos ao ver Odisseu escapar dos perigos por que passou, como a vez em que ele ficou à mercê do ciclope, ou do mar enfurecido por Poseidon, ou dos monstros marinhos. Digo, aparentemente à mercê, pois, o sopro de Odisseu constantemente o empurra para a ação mais hábil que qualquer um poderia executar naquelas situações. Nenhum homem parece ter ficado tão desprotegido quanto ele, mas também ninguém mais poderia ser um tal modelo de energia e astúcia, a ponto de estar tão inteiro e hábil nas situações que nem Poseidon ousaria simplesmente afogá-lo.
Referência
Jacqueline de Rommily - Homero
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