A religiosidade Minóico-Micênica

As civilizações minóica e micênica foram descobertas em escavações ocorridas entre o fim do século XIX e o início do XX. As tábuas descobertas na ilha de Creta, num alfabeto que chamamos de Linear A, ainda não foram decifradas. Já as tábuas com escrita em Linear B, que dizem respeito aos micênicos, tiveram suas listas de bens e propriedades lidas. Por volta do terceiro milênio a.C., a plantação de vinha e oliva prosperou nas regiões íngremes do sul do continente grego e de Creta. Os minoicos foram uma civilização próspera, com sua vida econômica e religiosa organizada pelo palácio. As diversas cidades de Creta, com destaque para Cnossos, que atingiu 80.000 pessoas, possuíam cada uma o seu wanax (rei) e sua população vivia em vilas nas cercanias dos palácios. As cidades não eram muradas, pois não havia ameaça de guerras. Intensas trocas eram feitas com o Egito e o Oriente Próximo. O palácio recebia, estocava e administrava os víveres produzidos (grãos, vinha, oliva, carne). O trono era o centro político e religioso. Ao lado dele, havia blocos de pedra decorados e com um furo central, onde o rei fazia as libações. A uma certa distância dos palácios, havia os santuários em cavernas. As cavernas, por serem escuras e úmidas, não eram usadas para a habitação humana, mas davam bons lugares para cultos às potnias, senhoras. Por exemplo, a caverna de Ilitia possuía uma pedra logo na entrada, com um aspecto de senhora. O local era buscado por aqueles que almejavam uma ajuda divina para algum parto. Em outra caverna, uma pilha de pedras encontrada sugeria ossos de animais. Ali era adorada a Senhora dos Animais. Nas cavernas, as explorações encontraram figuras em argila e em bronze, de homens, mulheres e de animais. Junto dos vasos e selos também encontrados, algo da iconografia dessa civilização foi descoberta. As divindades em geral eram femininas, talvez derivadas da Grande Mãe vinda do Oriente Próximo. Havia a Senhora dos Nascimentos, a Senhora dos Animais etc, cada uma com o próprio âmbito de atuação. Nas estatuetas e pinturas, as divindades eram distintas dos mortais pela atitude de adoração destes, com os braços cruzados em frente ao peito ou a mão direita erguida. Nas lareiras e nos altares foram encontrados cinzas e restos de ossos de animais, indicando a prática de sacrifícios, além de objetos sem utilidade prática, mas de possível valor cúltico, como machados duplos de ouro ou de bronze, espadas longas e pequenos vasos. Nas inscrições nos altares e nos fragmentos de afrescos dos palácios se verifica a prática de ofertas de libação e de vasos com frutas e pães. Historiadores da religião tentam estabelecer um nexo entre os mitos e o panteão grego posteriores e as divindades desse período pré-grego. Arthur Evans encontrou ruínas que identificou como sendo do palácio do rei Minos, em Creta. Há inscrições com os nomes de Zeus, Hera e Drimios, um filho de Zeus, e também de Poseidon. Mas esses deuses não são os mesmos do panteão grego, pois os cultos em torno deles mudaram, e as histórias acerca deles ainda serão contadas. Um grande terremoto, no século XVIII, destruiu parte dos palácios minoicos, mas eles foram rapidamente reconstruídos. Gradativamente, porém, a organização minoica vai se desmantelando, e a micênica, em diferentes cidades do continente grego, vai se organizando, também em torno do palácio, mas com uma preocupação maior com a construção de muros e a criação de exércitos. A arte micênica é bastante semelhante à minoica, indicando que as mesmas técnicas artísticas foram usadas e permitindo que se entenda ambos os povos em conjunto. O palácio continuava o centro da vida social e religiosa, com as libações ainda sendo um gesto régio. Certos lugares de culto ganharam maior relevo, como os santuários em picos e as procissões para árvores. Os picos não eram muito altos, e eram afastados das habitações o quanto fosse necessário para significar, para aquelas pessoas, uma saída do cotidiano para um encontro com o sagrado. Nos santuários em picos acendia-se o fogo à noite. Em um deles foram encontradas figuras em terracota de possíveis adoradores. Cenas em vasos e selos mostram órgãos esculpidos em argila sendo lançados ao fogo, talvez com a intenção de obter uma cura. Também se jogavam figuras representando seres terrestres, como homens e animais. Em um dos santuários, em meio aos restos de uma fogueira, foram encontradas bolinhas de argila. A hipótese para isso é um ritual em que os presentes foram obrigados a lançarem algum objeto ao fogo, e então lançaram essas bolinhas. Em um pico foram encontradas representações de escaravelho, o que, junto das cenas também encontradas, mostra um culto feito por pastores de ovelhas que adoravam aquele bicho devido a uma certa semelhança do ciclo de vida dele e da ovelha. Outro local de busca do sagrado eram certas árvores situadas em regiões rurais, afastadas: procissões seguiam em direção a elas, levando animais para o sacrifício; ao chegarem na árvore, mulheres dançavam em torno dela e, segundo as cenas encontradas, uma deusa aparece flutuando sobre elas, ou era entronizada embaixo da árvore. Em torno das árvores havia muros de pedra, em cima dos quais de colocavam chifres de bois. Um importante culto a uma árvore era para a oliveira sagrada que fica diante do Partenon, em Atenas: um selo em ouro mostra um homem diante da árvore, enquanto atrás dele uma cabra tem um galho de oliveira saindo das costas. A vida da cabra pela vida da oliveira. Em algumas moradias foram encontrados objetos de argila em forma cilíndrica envoltos com uma representação de serpente, e também bacias que podem ter sido usadas para alimentar esses animais. As serpentes não eram associadas aos mortos, mas à proteção do lar. Em relação aos mortos, a civilização micênica distingue-se pelo enterro deles, obviamente quando se tratam de nobres, com peças de ouro e belos vasos. Grandes sepulturas, chamadas tholos, foram construídas em diversas cidades do continente grego. Eram construções formadas de pedras, fazendo domos, dentro das quais enterravam-se membros da realeza. Dentro dos tholoi havia uma sala anexa, onde se fazia a inumação do morto, e sob o domo se fazia o sacrifício de animais e o festim. Os tholoi eram parcialmente enterrados, mas sua entrada era liberada, e os restos mortais em seu interior, varridos, a cada nova cerimônia. O caminho para os tholoi eram os dromos. A construção mais impressionante que restou dessa civilização é o chamado Tesouro de Atreu, tholos onde foi enterrado o grande rei de Micenas, pai de Agamenon e avô de Orestes. Referência Walter Burkert - Greek Religion

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