A morada musical
A atividade poética forma a primeira arquitetura da existência coletiva. Cantores e ouvintes habitam uma harmonia e sentidos, Produzem-nos e deles tomam parte. O grego arcaico não possuía um livro sagrado ou seguia um conjunto de preceitos. Cada localidade possuía seus ritos e mitos, determinados modos de se usar o corpo se desenvolviam junto a histórias de louvor a antepassados e deuses. Formavam-se corpos gregos, e fundavam-se cidades sob a proteção de determinado deus (embora se soubesse da existência de outros deuses). A gramática dos mitos era sociologizante, estabelecia lugares sociais. A partir do século VIII surgem as pólis, e os legisladores se inspiram na antiga virtude heróica (andreia) e, principalmente, naquela que é cara à cidade, sophrosyne, moderação. O grego arcaico e clássico não é um indivíduo, não vê a si mesmo como algo diferente da cidade. Ele é partícipe do mundo, estruturado pelos deuses e seus valores. O entendimento do dito de Protágoras de Abdera (século V), de que o homem é a medida de todas as coisas, deve se dar no contexto de um outro dito, segundo o qual o homem recebe, de Zeus, justiça e piedade, e que, caso ele falte em algum desses, que seja morto, por ser uma praga para a cidade. A cidade é esfera musical formadora do homem, e sobre ele tem a prerrogativa. o homem que é a medida de todas as coisas é o cidadão. A eusebeia, a boa piedade, não é uma questão de fé pessoal (assim como também não se reconhecia um ateísmo): em uma época de ameaças de guerra civil e entre cidades, a justiça e a piedade eram necessárias para a harmonia social e a dissolução de conflitos.
Referência
Peter Sloterdijk - Making the Heavens Speak
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