A gruta

A primeira vez que vemos Odisseu é naquele lugar. Tudo é cheiroso, sonoro, colorido, úmido. No Olimpo, os deuses decidem que é hora de Odisseu retomar seu caminho para casa. Hermes vai falar com quem o mantém cativo. Junto com o deus, vemos a entrada da gruta. Maravilhosa. A revolução neolítica foi a sedentarização do homem. Na terra e na mulher ele plantaria, e delas a vida brotaria. As primeiras divindades eram femininas, e eram aquelas mulheres ali, imediatas. Ontologia imanente. De onde vem a vida? Daquele interior misterioso. O homem aproxima-se da entrada mas, olhando dali, para o inteior, ele nada vê. No escuro do útero, no escuro da terra, não há nada para ser visto ou ouvido. Os olhos e os ouvidos não funcionam. Adentrar a gruta e afundar-se no seu interior pegajoso e quente. Ser absorvido. Feto e útero, ou homem e gruta, são cada um dois pólos de uma unidade. A percepção é de unidade. Não se lembra do que se viveu no útero porque se era um com ele. Quando se nasce, se vem à,luz, essa relação é rompida, e aí pode-se, retrospectivamente, constatá-la e interpretá-la. Mas aí é o tempo mitológico, discurso sobre o mito. Quando se está no mito, embebido nele, não se o percebe, não se diz sobre ele. Hermes fala a Calipso (agora a temos!) e lhe diz que Odisseu deve partir. É do destino dos mortais nascer. Calipso repara em Odisseu: ele poderia estar no paraíso, mas chora. De algum modo, Odisseu não se sente completo naquele lugar, mesmo ali podendo ser um repouso das agruras míticas por que ele passou. Veremos adiante que Odisseu teve um caminho difícílimo até ali. Qualquer homem adoraria ficar com Calipso, linda e doadora de imortalidade. Calipso é a própria gruta acolhedora (καλύπτω, "esconder")! Terríveis ameaças antes de Calipso, carinho e doçuras com ela: momentos distintos de uma gestação que agora se encerra. Odisseu verá a luz. Quem o gestou, quem formava seu útero? Os próprios deuses, desde o que causa incômodo (Poseidon), até a que ajuda (Atena). Odisseu viveu suas aventuras uterinas. Nada ele viu ou ouviu. Ele viveu, e finalmente falará ao chegar nos Feácios. A ida a Troia foi o seu primeiro nascimento. Odisseu era Ítaca. Após a guerra, no retorno, Odisseu adentrou em território não humano. Como se tivesse sido engolido por um grande organismo, cada passo era observado e cuidado, à sua revelia. Odisseu não é o homem que fica na porta da gruta, observando-a como o cientista, nem cuidadoso, pisando nela com um pé enquanto o outro deixa na soleira, para verbalizar onde o primeiro pé está pisando. Odisseu adentra e torna-se um infans. Hesíodo não subiu o Hélicon: permanceu embaixo, por causa do dever para com as ovelhas, e de lá escutou a Fala divina. Odisseu foi além, adentrou o lugar guardado pelas Musas: o lugar da pura vivência sem fala, mas que fundamenta qualquer falar. Esse lugar não é lembrado pelo homem, mas por ele o homem passou ao ter em si instalada a fala. E nele o homem, se tem sorte, ainda está, pois aquela Fala acompanha a sua fala. Referência Homero - Odisseia Peter Sloterdijk - Esferas 1 Giorgio Agamben - O que é a filosofia?

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