A emergência das póleis

A chamada "Idade das Trevas" na Grécia teve início com o fim da civilização palaciana, no século XII. É possível que esse fim tenha ocorrido devido à própria concentração de poder do palácio e dos chefes locais, levando a conflitos sociais insolúveis. A Grécia desorganizou-se política e economicamente. As cidades voltaram a basear-se na vida rural. Os dórios invadiram o centro e o sul do país, expulsando os eólios da Eubéia e os jônios de Atenas, fazendo-os migrar para a costa asiática. A população reduzida e restrita às atividades de subsistência não exportava seus produtos. Isso levou ao empobrecimento da arte cerâmica. Para os pesquisadores atuais este é um período de difícil iluminação, dado os raros achados arqueológicos. O que se conseguiu verificar confirmou o empobrecimento cultural ligado à indistinção social: os túmulos não eram mais individuais, como eram na época dos palácios. Os mortos eram cremados e suas cinzas eram guardadas em túmulos coletivos. Nesses túmulos não havia inscrições sobre deuses e sobre linhagens. A constatação é de que a escrita perdeu-se. Contudo, achados recentes levam a que se considere o fim deste período já no século X, e não apenas no VII, como se considerava. Achou-se, em Atenas, um túmulo do X, de uma mulher que foi chamada de "Rich Lady". Ela foi assim chamada devido às detalhadas inscrições, às jóias e aos vasos com traços de produção rural, encontrados próximos às suas cinzas. Provavelmente era uma aristocrata. Também em Atenas, e do mesmo período, acharam-se vasos com inscrições em forma de meandros, e pinturas de desfiles e banquetes. Esses achados levaram a que se considerasse esse período como, para a arte, o geométrico. Ao lado dessa melhoria artística, vasos da Eubéia encontrados em Al Mina, na Síria, e na Itália, em sítios também do X, sugerem a retomada das trocas internacionais. Talvez tenha contribuído para que consideremos a perda da escrita o fato de as notações comerciais serem feitas em meios putrescíveis, como peles e papiros. No século VIII, a poesia épica já estava escrita, em Linear B, imitada dos fenícios, e circulava na Grécia, espalhando a helenização. As cidades se desenvolviam cada uma no seu ritmo, com suas particularidades políticas, mas a difusão da língua, da cultura e a adoção de um mesmo panteão levam à unidade do país. A população crescia e se fazia necessário obter um fornecimento externo de alimentos. Isso ensejou a um colonialismo: expedições rumavam a cidades próximas ou distantes, passavam por conflitos com os habitantes locais, mas também acontecia de haver colaboração, e mapeavam o território, construíam um muro protetor e faziam leis próprias. A nova cidade era independente e livre da metrópole, tendo com ela trocas comerciais. Também ocorria a anexação de cidades por uma cidade mais poderosa, num processo chamado sinecismo. Na colonização e nessa formação da cidade-Estado as famílias aristocratas cultivavam como ancestral comum heróis fundadores. O desenvolvimento político das póleis será de disputas entre os aristocratas e a população trabalhadora. As famílias e os ricos tentarão dominar os cargos públicos, e os agricultores e artesãos tentarão adentrar o espaço da cidadania. A areté do herói homérico, baseada na nobreza e nos grandes feitos, nas cidades mostra-se como o agón, o apreço pelas disputas nas competições olímpicas, nos concursos teatrais e na busca pela participação na administração pública. Em Corinto, a monarquia deu lugar à oligarquia dos Baquíadas. As navegações e o controle do istmo que dá acesso ao Peloponeso fizeram com que essa cidade prosperasse. Esparta foi governada por dois reis, de duas oligarquias distintas e que disputavam entre si. Havia um conselho de anciãos, a gerousia, e um colégio cujos integrantes eram eleitos entre os homoioi. Licurgo instituiu a agogé, a educação dos homens jovens para se tornarem soldados. Esparta vivia em conflitos em suas fronteiras, especialmente contra Argos, e por isso constituiu-se num estado-caserna. As meninas eram educadas através de coro e de exercícios físicos, com vistas a futuramente serem mães de combatentes. Os meninos, aos sete anos, eram enviados para um treinamento coletivo, onde passavam privações de comida, de abrigo e de descanso. Quando adolescentes, participavam, individualmente, da criptia, situação em que precisavam sobreviver no mato, com pouquíssimos recursos, Como parte do treinamento, deveriam matar hilotas. Os hilotas eram uma espécie de escravos, mas de propriedade pública. Prestavam diversos serviços e, por serem em grande número em comparação aos homoioi, passavam por violência e não raro eram assassinados. Outro grupo era o dos periecos, habitantes das fronteiras, que trabalhavam com a terra e com artesanato. Os filhos das famílias ricas, que passavam pelo treinamento militar, ao chegarem aos trinta anos chegavam à cidadania. Eles deviam participar de refeições coletivas, as sissitias, cada um levando a sua contribuição. Aquele que não tinha como contribuir com a refeição era rebaixado socialmente. Atenas, no século IX, vivia sob um regime de arcontado. Os arcontes cuidavam dos compromissos religiosos e da organização militar. Progressivamente, contudo, os trabalhadores adentraram a cidadania. O que determinou isso foi a chamada "revolução hoplítica": nas cidades gregas, o poder político sempre ficou para os defensores da cidade. Mas só podiam atuar nas guerras quem tinha recursos para comprar as armaduras e as armas. Por muito tempo, só os aristocratas podiam vestir a fantasia do herói homérico, supostamente um autor individual dos seus feitos e merecedor da glória, No entanto, um aspecto da guerra em Homero é a necessidade do herói em fazer parceria com um deus e em atuar ao lado dos seus companheiros. Não há herói desacompanhado de um deus e que não seja amigo dos outros combatentes. Quando Aquiles negou ajudar os aqueus, no canto IX da Ilíada, ele entrou num caminho de perdição, e não de heroísmo. Os trabalhadores do campo, em Atenas, apesar das dificuldades, conseguiram prosperar. Compraram os equipamentos necessários para participarem da defesa da sua cidade. Nas batalhas, um novo modo de organização dos homens foi adotado, a falange: cada combatente era ombreado pelos demais; em seu braço direito ficava uma espada ou uma lança, e no esquerdo, o hoplos, um escudo de um metro de diâmetro, feito de madeira e revestido de bronze; cada homem tinha o lado esquerdo do seu corpo protegido pelo seu próprio escudo, e o lado direito do seu corpo era protegido pela borda esquerda do escudo do companheiro à sua direita. A proteção e o sucesso de cada um dependia dos demais, e isso desenvolveu um espírito de solidariedade que se fez sentir na cidade. Quando os arcontes ficavam velhos, exerciam funções no areópago. Havia o conselho, de participação daqueles que tinham mais propriedades, e a assembleia, de participação popular. As necessidades da cidade eram discutidas na assembleia, e uma proposta de lei era elaborada pelo conselho, sendo reenviada para a assembleia votar. Essa diferenciação da população a partir do nível de riquezas foi estabelecida por Sólon, com o interesse de desfazer os privilégios das famílias, das linhagens. Sólon acabou com a escravização por dívidas mas, ao não fazer uma redistribuição de terras, deixou que elas continuassem majoritariamente nas mãos de poucos. Após ele, houve tiranos, como Pisístrato e Hípias, que fizeram importantes obras públicas, como aquedutos e santuários. A democracia voltou com Clístenes, que incorporou estrangeiros à cidadania, a partir de registros a serem feitos nos demos. Com o objetivo de impedir a dominação de um aristocrata local sobre trabalhadores, Clístenes dividiu a população em dez tribos, cada uma composta de homens pinçados da área das montanhas, da área do interior e da área do litoral. Essas tribos mistas compunham o conselho. O fim do censo e, com isso, do domínio dos mais ricos na administração da cidade, deu acesso a todos os cidadãos aos cargos públicos, atendendo ao ideal da isonomia e da isegoria (igualdade perante a lei e igualdade de fala). A importância de uma educação igual para os cidadãos se fez sentir. Referência François Lefevre - História do Mundo Grego Antigo

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