A cordialidade
Um coração humano não precisa ser entendido como um componente de um certo sistema orgânico, um órgão que trate da circulação de uma determinada quantidade de sangue e, com isso, permite que o indivíduo procure os outros para com eles fazer laço social. O coração pode ser um órgão da comunhão com o Outro, da constituição de uma intimidade bi ou multipolar. Sloterdijk comenta um texto de psicologia renascentista, de Marcílio Ficino. Ficino retoma os personagens de Platão, Fedro e Lísias, para propor uma imagem de comunhão amorosa cardíaca. Lisias anda pelas ruas, preocupado com alguma coisa. Passa pelos jovens que se exercitam, e tem os olhos fisgados por um deles. Fedro retorna o olhar daquele homem mais velho, e assim lança, dos seus olhos para os olhos de Lísias, um raio luminoso e vapores sanguíneos, que entram nos olhos do outro. Uma vez absorvidos por Lísias, os vapores do sangue de Fedro se condensam e passam a habitar o coração dele. A partir daí, o amante seguirá o amado por toda a parte, pois o sangue do amado sente nostalgia do lugar de onde veio. O encantamento amoroso faz com que as almas unam-se. O coração, aqui, é tomado como um irradiador que mantém uma alma cativa à outra. Sloterdijk comenta que os reis exerciam sobre seus súditos um efeito como o do sol sobre o que está abaixo dele: todos recebem seus influxos e são intimamente ligados a ele. O poeta grego antigo transmite ao seu público a fala das Musas, que é uma verdade divina. A comunidade grega formava-se a partir desse cantar e escutar. Cada homem compartilhava uma intimidade com o Outro. Sloterdijk repara que a psicologia de Ficino, de fato, só vai até o ponto da influência do Outro, não compreendendo a troca de influxos. O amado segue o amante porque quer o seu sangue de volta. Os deuses são absolutos intimamente ligados aos mortais.
Referencia
Peter Sloterdijk - Esferas 1
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