A conversa entre o rei e o forte
A Ilíada começa com a briga entre Aquiles e Agamemnon: Agamemnon, rei dos aqueus, teve de entregar sua escrava ao pai dela, para acalmar a fúria de Apolo, que matava seus homens e animais; muito preocupado em não ficar sem seu prêmio e, com isso, ser desonrado, Agamemnon ameaçou tomar de Aquiles a escrava dele. O melhor guerreiro dos aqueus, então, iniciou o movimento de puxar a espada, para matar o rei, mas Atena veio por trás e segurou-lhe os cabelos. Aquiles virou-se e viu a deusa de brilhantes e assustadores olhos. Atena disse-lhe para não matar o rei, e esperar, pois em breve ele receberá uma recompensa três vezes maior do que aquela e o reconhecimento, dos aqueus e do rei, da injustiça cometida contra ele. Aquiles, então, retira-se da guerra. Esta cena dura um instante: foi quando a perdição de Agamenon provoca a cólera de Aquiles, mas o herói contém sua ação, que seria desastrosa, e se afasta. Aquiles tem seu nome derivado de akhos, sofrimento. Ele sofre por saber que terá a vida curta. Por isso, ele busca a glória imorredoura. Após afastar-se dos aqueus, Aquiles se encerra em sua tenda. Com ele há escravas, mas sua companhia é Pátroclo, um homem um pouco mais velho do que ele, e que o admira e presencia tudo o que ele faz. Com a proximidade da destruição dos aqueus, eles trazem as súplicas do rei, com farta recompensa, mas Aquiles lhes vira as costas. Ele quer a destruição de quem o desonrou. Entretanto, quando Pátroclo age para afastar os troianos, e com isso acaba sendo morto por Heitor, Aquiles se levanta para a destruição dos troianos. Essa matança segue até a morte de Heitor, pois o corpo deste é o que Aquiles vai arrastar incansavelmente em torno do túmulo do amigo. A vingança de Aquiles resulta nesta terrível cena. Como um animal que eternamente mastiga o cadáver daquele que ousou matar a sua cria, o destroçamento do corpo de Heitor seria eternamente oferecido por Aquiles a Pátroclo. Aquela parada de Aquiles diante de Agamemnon é um instante que se eterniza, e é belo por ser um instante de razão. Já o ultraje do corpo de Heitor, em oferta a Pátroclo, é selvageria em moto perpétuo, uma quebra no tempo não pela beleza, mas pela compulsão. Após onze dias, Apolo vai a Zeus para pedir que algo seja feito para parar o ultraje ao corpo de Heitor, homem que tanto honrou aos deuses. Zeus concorda com Apolo, mas discorda dos que sugerem que o cadáver seja pego escondido. Aquiles devolverá o cadáver de Heitor. Ele não é louco, será generoso e piedoso com um pai sem o seu filho. Dessa forma, Zeus entende o desfecho honroso de Aquiles e, para realizá-lo, envia Tétis para comunicar ao filho a ira maior de Zeus, e envia Íris para dizer a Príamo que ele retomará o filho. Hermes, um dos deuses a quem é cara a companhia dos homens, e que ajuda na criação de ambientes de conversa entre eles, vai a Príamo, apresentando-se como um servo de Aquiles e, também, como filho de Príamo. Hermes se propõe a ser a parte que falta de cada um deles. As primeiras palavras de Príamo a Aquiles, já na tenda, seguem as de Hermes: Aquiles, lembre-se do seu pai, da sua mãe e do seu filho, de quem você se afastou. Eu perdi muitos dos meus filhos, e perdi aquele que me era mais caro, o baluarte da cidade e da família. Essas palavras criam um ambiente de conversa, mas esta não ocorre com palavras, e sim com choro: o pai sem filho e o filho sem pai choram um diante do outro. Agora ocorre outro daqueles instantes preciosos, que cortam o tempo: Aquiles, delicadamente, afasta Príamo, o faz sentar-se e escutar o forte assassino do seu filho. Aquiles diz das dores e dos bens que os mortais recebem de Zeus. À dor deve seguir o choro, mas este, em excesso, é prejudicial. Priamo perdeu os filhos, mas gozou como rei. O pai diz que seu coração só se acalmará após levar Heitor consigo. Aquiles o olha de esguelha, mandando o aquietar-se, pois ele próprio, Aquiles, é quem determinará como isso vai acontecer. Da mesma forma como Aquiles temeu a cólera maior de Zeus, Príamo teme a dele. O rei senta-se e admira aquele homem. Aquiles diz como o cadáver de Heitor será arrumado no carro, e aceita o pedido de Príamo de uma concessão de doze dias paras as cerimônias fúnebres. Agora eles cearão e dormirão, como homens que se encontraram e entraram num acordo. Um forte e um rei se entenderam, pela influência de Hermes. Aquiles sabe que agora está próximo de reencontrar Pátroclo. Príamo leva, consigo, o cadáver intacto do seu amado filho. O sofrimento maior, na Ilíada, é o de não ser ter relações. Por esse sofrimento, os homens produzem desgraças, e, tardiamente, precisam honrar Lité, as Súplicas. Essas filhas de Zeus são benfazejas, pois fazem os homens se encontrarem no reconhecimento mútuo das dores, e na organização do que devem fazer e dos seus poderes. Vislumbra-se, aí, a possibilidade de uma sociedade.
Referências
André Malta - A Selvagem Perdição
Homero - Ilíada
Rachel Bespaloff - Da Ilíada
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