A canção do sofrimento e da fúria
Em comunidades tradicionais, as histórias que se contam ligam-se à terra, ao ciclo de brotar e murchar dos homens e das coisas. As histórias, contudo, mantém-se vivas e circulantes. Deuses e heróis são imortais por serem cantados nas imorredouras canções gloriosas. A realidade é formada por tudo aquilo que é mortal e pelo que é imortal. O que é cantado e dançado é o brilho, o melhor de tudo o que existe. No canto XIX, da Ilíada, Tétis traz para Aquiles as armas maravilhosas feitas por Hefesto. As armas em ouro, com ricos detalhes, brilham e impulsionam o sofredor coração do herói de furor bélico. Perde o valor a cólera contra Agamenon. As armas douradas e a fúria amorosa destacarão Aquiles dos outros homens. Ele sairá da tenda e se apresentará aos demais aqueus. Agamemnon se retratará, atribuindo a Zeus e a Áte sua atitude que desonrou o melhor dos aqueus. O rei apresenta Briseida, a escrava tirada do herói, garantindo, por sugestão de Odisseu, não ter se deitado com ela. Talvez algum deus apreciasse essa pureza da moça, mas isso já não importava para Aquiles: antes ela tivesse morrido, e ele também não tivesse entrado no caminho da perdição, que lhe tirou o companheiro! Agora Pátroclo está morto na tenda, e a vida comum dos homens, as coisas que eles fazem para reproduzir o ciclo de gastar-se e refazer-se, lutar e alimentar-se, não é mais o de Aquiles. A comida não lhe desce a garganta, pois seu coração está cheio de furor bélico. Tétis lamentava perder um filho tão bem nascido e criado, um varão forte e belo que será ceifado antes de murchar naturalmente, como todos os homens. Ele poderia ter voltado a Ftia, phtia, murchar, mas buscará a kleos aphthiton, glória imurchável. A lamentação, akhos, faz o nome Aquiles, e ela chegou ao limite com a perda de Pátroclo. Os aqueus agora se restauram, depois avançarão ordenadamente. Aquiles foi alimentado de ambrosia e néctar, e seguirá como um homem diferente: uma besta surgida por um sofrimento atroz, um deus entre os homens. O tempo infinito da canção é mais real do que o tempo das coisas que surgem e desaparecem. Mas a canção é a própria vida, no seu auge. Tétis conservará o corpo de Pátroclo sempre belo. Aquiles entrará para a história como um jovem inflexível, destruidor e amoroso.
Referências
André Malta - A Selvagem Perdição
Gregory Nagy - The Ancient Greek Hero in 24 Hours
Homero - Ilíada
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