A ação é da dupla

Num dos primeiros cantos da Ilíada, Heitor caça Páris, e quando o encontra lhe dirige palavras duras: ele se ocupa apenas com seu belo aspecto e em dividir a cama com Helena. A guerra que ameaça destruí-los começou por causa dele, e ele deve se apresentar perante os homens em batalha. Afrodite concedera a Páris a mais bela mortal, e continuava trazendo Helena para ele, mesmo nos momentos em que, irada, a bela mulher ameaçava não mais ceder àquele encanto. A união entre Páris e Helena não é equilibrada, nem a dupla formada por ele e Afrodite é assim tão boa. Em outra situação, ainda mais recuada no texto, Agamenon dorme despreocupado após um dia em que ele rompeu com Aquiles, dispensando o braço do melhor dos aqueus. Estava confiante de que o exército lutaria bem e continuaria disposto a lutar por ele. Zeus, que não dormia, maquinava como beneficiar temporariamente os troianos, a fim de obrigar aos aqueus e ao seu rei a honrarem Aquiles. O Pai dos Deuses e dos Homens envia um sonho enganoso a Agamenon, dizendo que a vitória se aproxima e que ele deve imediatamente preparar os homens. Antes dessas palavras, o sonho critica o rei que não se mantém vigilante. Agamenon acorda acreditando no sonho, acreditando ser favorecido por Zeus e acreditando, sobretudo, na própria capacidade de vencer a guerra. Agamenon está em plena Perdição, que impede a visão clara das coisas e encaminha o homem para ações desastrosas. Chegando ao canto 9, Agamenon vê o perigoso avanço das tropas inimigas, e reconhece o terrível erro que cometeu ao afastar Aquiles. Ele manda uma embaixada ao heroi, oferecendo riquíssima recompensa e suplicando por ajuda. Desta vez, é Aquiles que está tomado de Perdição: ele entende o gesto de Agamenon como apenas interessado em beneficiar a si próprio, e não cessa de evocar a discussão que teve com o rei e de realimentar seu coração de cólera. Ele acredita que, quando os troianos chegarem até o seu acampamento, ele enfim se levantará, matará Heitor e terá a glória almejada. Isso é o que ele pensa que irá acontecer, e tem confiança de que Zeus o favorece. Páris, Agamenon no canto 2 e Aquiles no canto 9 são exemplos de homens sozinhos, que nesses momentos não têm relação próxima com outro mortal ou com um deus, e que acreditam poderem agir por conta própria ao tomarem seu entendimento das coisas como claro. No canto 10, do lado aqueu, Agamenon está vigilante e ocupado em encontrar uma forma de impedir o avanço dos troianos. Ele reúne um pequeno comitê, e pede a Nestor uma sugestão do que fazer. O velho sugere o envio de um espião para descobrir como se organizam e pretendem agir os troianos. Diomedes se prontifica e diz que precisa de um companheiro: ele chama Odisseu, de quem diz ser o mais astuto dos homens, aquele que vê acima dos outros justamente por estar sempre acompanhado de Atena. Quando se está em dupla, um complementa a ação do outro. Ainda que reconheça a superioridade do outro quanto à astúcia, Diomedes pretende ter com Odisseu uma equanimidade. E ainda com a presença da Deusa! Do lado troiano, Heitor, que também não dorme, tem aquela mesma ideia de Nestor. Um homem chamado Dólon se prontifica: ele é feio e tagarela, e garante ser capaz de cumprir a missão. Dólon apenas exige que Heitor lhe separe as armas e os cavalos de Aquiles, como prêmio. Os espiões põem-se a caminho, na noite repleta de areia, corpos e armas. À distância, os amigos vêem alguém que só pode ser um inimigo. Na certa quer o mesmo que eles, mas está sozinho. Deixam-no passar sem vê-los, e tomar distância. Saem, então, na perseguição. Diomedes interrompe a corrida para atirar uma lança, que se crava diante de Dólon. O homem gela, paralisa-se. Não há um amigo para completar sua ação. No canto anterior a esse, Diomedes dissera que os aqueus precisavam apenas de comida e descanso para agradar ao coração e liberá-lo para o ímpeto da guerra. Agora vemos que, o homem, quando está sozinho, está cheio de si, portanto está vazio. Dólon se ajoelha e fala de forma desmedida, sobre o que pode oferecer por sua vida e sobre como os trácios, dentre os troianos, são os que dormem mais desprotegidos. Ele chega a culpar Heitor de ter incutido nele a ideia de espionar. A cabeça de Dólon é cortada e, enquanto rola, ainda fala! Diomedes e Odisseu chegam e vêem os trácios deitados, com as armas postas ao lado e os cavalos próximos. Um dos aqueus mata doze, mais o rei trácio, enquanto o outro recolhe os bens. Atena aparece e diz que logo virá a Aurora. Os amigos saem despercebidos e voltam para as naus. Referência André Malta - A Selvagem Perdição

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