Uma chacina em São Gonçalo
"- Começou seu jornal de todas as manhãs. Hoje o dia está aberto, sem previsão de chuva. Onde está você, helicóptero?
- Bom dia. Sobrevoando a zona norte. Esta avenida começa a sentir os efeitos da segunda-feira. Opte por aquela outra.
- Dezenas de pessoas passaram a madrugada no posto de saúde, para pegarem senhas para a vacina. Mas o secretário de saúde acaba de nos informar que, por falta de doses, a vacinação está temporariamente suspensa.
O repórter aéreo nos chama. É com você.
- Estamos sobrevoando esta favela, onde a polícia militar faz uma operação. Moradores relatam ter acordado com um intenso tiroteio. As ruas estão desertas, e quem trabalha e estuda precisará esperar para sair.
- Esta é a rotina do faroeste carioca. Só quem mora na favela é que sabe."
A poluição e os altos preços são as canções dos jornais da tarde e da noite. A animação nas manhãs, o que infla os pulmões de quem toma café e pega o carro, é a canção que fala dos atalhos para o trânsito e da violência a ser evitada. O pobre é que não tem como sair de onde está, não recebe um sopro de ventilação.
Esta comunicação é entre o âncora e os que saem de casa nos próprios carros. Quem anda em coletivos lotados assiste e se imagina participante. O âncora de fato solicita a participação destes, o repórter entrevista a mãe que está com a geladeira vazia, do auxílio que não chega. O âncora chama a autoridade, mas a realidade da pobreza não vai acabar.
A canção vai do âncora para a classe média, e do pobre para o âncora. Dois pólos desse triângulo não precisam se encontrar. O jornal é o nó que segura as pontas da cidade partida. Ele faz a animação paranóica e individualizada de um, e a recebe o último fôlego, de outro. Não há boa nova, e o ar vai acabar também para quem ainda respira. O telejornal sabia de antemão o que o pobre iria lhe dizer, a classe média sabia de antemão o que o telejornal iria lhe dizer. A canção já está em quem a escuta, as sereias apenas mexem a boca. Ouve-se o que já se sabe, mas que se precisa ouvir.
O âncora que fala do inferno é parceiro íntimo do indivíduo paranóico. O rádio do taxista fala aos solitários. A cidade é infernal, por isso suba o vidro, ligue o ar e vá pelo caminho mais rápido. A gasolina está cada vez mais cara, mas você ainda paga por ela, pois aquela voz é a sua seiva.
Na madrugada de sexta para sábado, no Complexo do Salgueiro, São Gonçalo, um policial militar foi morto. Segunda de manhã o helicóptero do telejornal mostrou gente daquela favela carregando corpos cobertos de lençóis brancos, e pondo-os no chão, um ao lado do outro. O âncora do programa informou que, sábado, o BOPE entrou no lugar e trocou tiros com criminosos. Por aúdio, o Major Ivan Blaz, porta voz da PM, disse que os objetivos do BOPE eram encontrar o autor do tiro que matou o pm e estabilizar o terreno.
Pergunto: as investigações não são feitas pela polícia civil? Uma busca de informações feita pela pm tem chances de não ser feita de forma violenta?
No site G1, uma reportagem mostrou os moradores dizendo que precisaram buscar os corpos na área de mangue. Os bombeiros recusaram ajuda, pois a informação era de que a polícia e os bandidos ainda trocavam tiros. Segundo os moradores, o BOPE levou aqueles sete homens para o mangue, e lá os deixou, mortos. Os corpos estavam com ferimentos por faca, incluindo olhos arrancados, dedos decepados e rostos tornados irreconhecíveis. E marcas de execução.
Segundo Bruno Snell, para os gregos antigos a palavra corpo, soma, era atribuída apenas ao cadáver. Os aspectos físicos do homem vivo eram nomeados particularmente, como chros, para postura, e meles, para os membros. Aquiles tinha ágeis pernas, ágeis meles. Atena se aproxima de Ulisses e, embora esteja disfarçada por um conhecido dele, Ulisses reconhece a deusa devido ao chros. O corpo do homem vivo era caracterizado por uma multiplicidade.
Roberto Esposito entende que a perspectiva do corpo supera à da dicotomia entre pessoas e coisas. O corpo é o lugar onde ocorre a relação e a interformação entre corpos e almas, incluindo os das coisas. O corpo do homem vivo é múltiplo, de modo que fica difícil falar sem equívoco de que este corpo é meu. Esta frase é melhor entendida se ela se referir ao corpo como o lugar onde habito.
É menos equívoco falarmos que o morto é aquele corpo, no sentido de que ele não é nada mais do que aquilo, inerte. O BOPE pegou a gente meio suspeita, meio múltipla, da favela, e a transformou em corpos definidos. A faca foi usada pelos sujeitos nos objetos da operação cirurgiã-policial. Olhos e dedos foram arrancados, pois estes são os oŕgãos pelos quais um corpo age como sujeito, olhando e pegando objetos. Seus rostos foram marcados.
Os homens infames, para Foucault, eram seres de existência não percebida pelo poder. Na noite da existência, eles são informes, múltiplos e inacabados, até que uma luz os encontra. Não se trata de um ser dado à luz, um vir ao Reino do ser, da existência plena. Não é uma glória que está sendo conferida, ao ser lembrada. Trata-se de um pinçar do cotidiano infame algo que possa ser usado para acusação, para se fazer um sujeito desviante. Então eles são pegos e interrogados, ganhando uma existência nos laudos e fichas. Esta existência é como a dos arabescos do próprio polegar ou dna: Giorgio Agamben nos diz que ela é estranha para a pessoa, não é ela mesma, embora seja, por estar entranhada. O BOPE fixou aqueles rostos, tornando-os eternamente rostos de bandidos pegos pela polícia. Não importa o que eles fizeram na vida e para morrer.
No fim do filme Tropa de Elite, Baiano, o bandido mais procurado, está rendido pelo Capitão Nascimento. Baiano sabe que o desejo de vingança do Capitão não permitirá que ele o leve preso. Seu único pedido é não tomar tiro no rosto, para não estragar o velório. Capitão Nascimento usa uma escopeta para destruir completamente o rosto de Baiano.
Na Ilíada, após ter perdido Pátroclo para o bronze de Heitor, Aquiles sai de sua cólera contra Agamêmnon e lança-se em busca de Heitor. O herói mata muitos troianos, enfrenta o rio que o ataca, por ele estar despejando corpos em suas águas, chega a Heitor e o mata com facilidade. Em sua biga, Aquiles amarra o corpo de Heitor para que ele seja arrastado no chão quando os cavalos andarem. Aquiles cuida para que o rosto do cadáver fique voltado para a terra e as pedras lacerantes. Os deuses, porém, chocam-se com tal selvageria, e mandam para o cadáver uma proteção contra danos. Os deuses protegem o corpo, e principalmente o rosto de Heitor. O rosto do grande protetor de Tróia, que muito ofereceu a Zeus, permanece intacto.
Divina é a cólera de Aquiles, mas o que ele tenta fazer é animalesco. Os deuses se horrorizam, também a mãe e a esposa de Heitor. Aquiles pára e volta à nau com Heitor. Àquela altura, os troianos sabem o seu destino. Rei Príamo está arruinado, mas quer o corpo do filho, para as cerimônias fúnebres. Hermes ajuda o rei, conduzindo-o despercebido por entre as hostes dos mirmidões. Aquiles surpreende-se com o rei troiano em sua tenda. O ancião atira-se para aqueles joelhos, chora beijando as assassinas mãos. Não estamos diante de uma dualidade, um velho acabado e um moço no ápice da sua glória: Príamo lembra em tudo o pai de Aquiles, que longe do filho rapidamente consome a própria vida. Aquiles entende aquele pai, e chora.Temos dois filhos e dois pais na cena.
A mão e o olho podem ser usados para dominar a coisa, torná-la objeto e a si mesmo sujeito. Se temos uma guerra no Rio, ela é inglória, instalou-se na barbárie. Nela ninguém é herói, nem cidadão. Roberto Esposito conta que a palavra povo como o todo dos cidadãos é contradita pelo seu outro sentido, o de estrato social inferior. Nossa comunidade procura manter sua sobrevivência biológica excluindo de si mesma sua parte infecta, numa biopolítica narcísica.
Nos últimos anos da ditadura militar brasileira, policiais militares aposentados, moradores da favela de Rio das Pedras, organizaram um grupo para expulsar do local traficantes de drogas, e espancar e assassinar moradores que fossem usuários dessas substâncias. O crescimento e ganho de poder deste grupo se deu com a entrada de pms da ativa, lotados no 18° Batalhão, de Jacarepaguá.
O 18° foi o batalhão onde atuou Fabrício Queiroz, que fez academia militar com Jair Bolsonaro. Queiroz tornou-se pm e Bolsonaro tornou-se político, mas as relações entre eles evoluíram para uma eficiente troca de favores: a milícia de Rio das Pedras divulgava e cuidava da eleição dos candidatos da família Bolsonaro, em cargos públicos, e esta família protegia a milícia contra eventuais investigações do MP e da Civil.
As milícias controlam todas as atividades econômicas do território onde estão instaladas, e impõem sua ordem aos moradores. E o Estado se faz presente através das violentas operações policiais. As crianças e os jovens crescem vendo como única possibilidade para si mesmos pegarem em armas, seja para atuarem no tráfico, agora controlado pela milícia, ou para atuarem na pm, e se imporem sobre a própria favela onde cresceram. Este segundo caminho tem um verniz de legalidade, que atrai o jovem pobre que quer se diferenciar da moral do seu ambiente natal.
A formação militar deste jovem se aproveita do ódio que a miséria e a violência, que a falta de futuro, de liberdade para ser, ensinaram que ele deveria sentir de si mesmo. O corpo do pobre já é determinado em vida. Tal como fizeram os primeiros milicianos, que não se viam como favelados e então fizeram uma cirurgia de retirada da favela ela mesma, a pm vê a si mesma como uma guardiã da classe média, mas mais moralizada e heróica do que ela.
A comunidade da frivolidade e da leveza, que não nem é a dos donos de empresa, muito menos a dos trabalhadores, é a dos usuários de apps e dos aplicadores-gamers, não pode ter a ruga da pegada de um preto. A pm também é indesejada, pois não se faz questão de ter direito à proteção. O trabalho da polícia precisa ser de margem, empurrando para fora aqueles que sempre vão querer entrar e se misturar. Na favela, o pm só vê aquilo que precisa não ser, pois é sempre bandido. A matança de pms sobre favelados tornou-se um game, com o agente fotografando a si mesmo antes da operação, com arma na mão e cara de mau, e depois, no churrasco custeado pelo dinheiro recolhido.
Surgiram pms e delegados youtubers, que mostram operações e se orgulham das violações de direitos que cometem. O trabalho imaterial ocorre com cada uso que fazemos do celular. O trabalhador é um avatar digital que nunca fica offline. Faça o que fizer, não se pode ficar offline nem deixar de aparecer. Somos autores sem obras. Os policiais também entraram nessa. O sucesso é conquistar algo que é o eu. De onde se veio, o que se fez, para onde se vai e o que se fará têm sentido pelo eu. Não há realmente passado e futuro. Datas comemorativas existem para relembrar algo que aconteceu, ou o seu autor, que foi construtor do mundo em que habitamos. Essas datas, e os feitos e seus heróis correspondentes, podem ser particulares ou coletivos. Mas o eu sempre presente quer ter vindo ao mundo puxando a si mesmo pela própria peruca, como o Barão de Münchhausen, buscando uma glória referida apenas ao próprio eu.
Os policiais têm a tarefa de cuidar das margens do mundo. Por isso, não podem ficar plenos com seu eu. Na distinção que Byung Chul Han faz entre positividade e negatividade, é nesta última que eles operam: o favelado é um corpo estranho, uma contaminação que precisa ser retirada. Todo corpo na favela é um agente patogênico. As operações policiais não alcançam algo que possa ser comemorado, pois é na negatividade, na retirada do lixo, tal como lixeiros, que atuam. O que se ganha com essas operações? Não cabe essa pergunta. Com elas só se perde, mesmo que o contabilizado seja apenas o dinheiro e os policiais gastos com elas.
Na mitologia grega, a soberania de Zeus e dos olimpíanos é glorificada como uma vitória sobre os gigantes, forças destrutivas e mortais. A subjugação destes significa a vigência do poder que garante a plenitude da vida das coisas. O cultivo contemporâneo do eu é a celebração da falta de obra. Pms matam seres humanos, que existem aos milhares para serem mortos. É assassinato, genocídio negro e pobre. Tornou-se trabalho. Os pms são operários, pagos pelo Estado para fazerem esse serviço. Com as milícias, tornaram-se empreendedores, usam sua expertise em armas, enfrentamentos, achaques, esconderijos, torturas e execuções. Os Bolsonaros são seu avatar político. Delegado Da Cunha, e outros, são novos avatares de policiais, agora no YouTube.
Na chacina em São Gonçalo, o BOPE desfigurou as caras dos mortos justamente para que eles não tivessem chance de serem alguém, para que não fossem nada além de corpos de bandidos, o resultado direto da relação dicotômica com o policial. O que teria feito Aquiles se o Rei Príamo tivesse olhado nos seus olhos, e a ele pedido o corpo de seu filho? Ao agarrar-lhe os joelhos, beijar-lhe as mãos assassinas e falar-lhe do pai dele, Rei Príamo colocou-se não como uma dupla, um inimigo de Aquiles, mas como o vértice de um triângulo: um suplicante, joelhos e mãos e Peleu, pai de Aquiles. Para existir aquele pai destroçado foi preciso que os joelhos trouxessem de longe as mãos hábeis e assassinas, e que um outro pai tivesse ficado distante e esquecido. Aquiles era mãos e joelhos, e estes eram um nexo entre dois pais.
Pedro Bala, líder dos Capitães da Areia, andava pelo cais quando deu com João de Adão. Era noite e o estivador chupava laranjas, sentado num toco, enquanto jogava conversa fora com a comadre Luisa. Pedro aproximou-se. João pergunta a Luisa se ela se lembra de Raimundo, pai de Pedro, um estivador loiro que trabalhou ali, dedicado ao trabalho, mais ainda aos companheiros, com quem organizou greves. Numa dessas, lutando pela coletividade, tomou um tiro no peito, de que morreu.
João conhecia a liderança de Bala sobre os meninos de rua, da cidade contra quem lutavam. Ele disse ao menino que, quando ele aguentasse o peso, teria lugar ali. Pedro está na rua desde os cinco anos. Do pai, só ouviu histórias distantes. João o trazia de volta à vida. Aquiles ouviu sobre o próprio pai, quando Priamo falou de seu filho. Isto foi a única coisa que o fez sair da selvageria: uma história entre pai e filho. A canção de Aquiles pôde então ser a do glorioso herói irado, porém que não se excedeu.
Pedro voltava para o trapiche quando viu uma pretinha no areal deserto. Ela era do tipo que os moleques costumavam deitar. Cercou a menina, cantou-a, e ela esquivou-se. Agiu o tesão, e Pedro a derrubou. Ela gritou, para o nada. Pedro pediu, a menina disse que ia para a avó, e que era virgem. Pedro pensou em desistir, mas seu corpo falou mais alto. Disse a ela que faria atrás, ela continuaria moça. Ela calou-se, e sentiu dor. Pedro terminou, com ela levantou-se, passou o braço por sobre seu pescoço e vieram andando. A menina tremia. Após percorrerem uma distância, Pedro a deixa ir. Ela corre até a esquina, olha para ele e o amaldiçoa de todas as desgraças do mundo, gritando feito mulher. Ainda levará um tempo para Pedro ser seu pai, e empregar sua força na estiva e sua ira nas greves. Por enquanto, ele esta no dois a dois com a vida, no qual se é presa ou predador.
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